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Zona Livre => Café Virtual => Tópico iniciado por: JC Duarte em 06 / Mai / 2008, 18:49



Título: Negócios!
Enviado por: JC Duarte em 06 / Mai / 2008, 18:49
(http://www.photoblog.be/liesbeth/images/002/319/2319719.jpg)
A história é simples e, para além dos pormenores, banal.
Abriu há quase cinco anos. Mesmo encostado à estação de comboios, tinha cafés e bolos, refeições muito simples e pão quente, feito no local. E simpatia, muita simpatia.
Talvez porque três das quatro paredes fossem de vidro, o local convidava a entrar e estar, não fora ficar em local de pressa no caminho do trabalho ou de pressa no regresso a casa. Tinha ainda um pequeno detalhe ou truque comercial com muita graça e originalidade: o relógio de parede, atrás do balcão, estava invariavelmente adiantado uns quatro a cinco minutos em relação aos comboios. Quem quer que por ele se orientasse para viajar nunca perdia a composição prevista. Truques!
Mas se no início se fazia fila para se ser atendido ao balcão, nos últimos tempos as coisas foram mudando e as mesas foram ficando vazias, ocupadas ocasionalmente por aqueles que pagam, com o preço de um café, o direito a estar sentados e ver quem passa.
Um destes dias dei com a porta fechada. E com os vidros tapados, por dentro, com folhas grandes de papel. E este anúncio, avisando do encerramento e próxima reabertura. E fui forçado a “cafezar” noutro poiso no caminho do trabalho!
Acontece que, entretanto, encontrei uma das empregadas. A mais dinâmica e que, suponho, tivesse a função de ir gerindo o local na ausência dos patrões. Que vim a saber serem quatro.
E sobre quem vim também a saber que avisaram as empregadas na véspera da consumação dos factos. E sem nenhuma indemnização. O acerto de contas ficou-se pelo mês vencido, apesar de todas terem mais de quatro anos de casa. Nem mesmo um pré-aviso confortável! Assim! Literalmente de um dia para o outro!
E quando confrontei a minha interlocutora com a possibilidade e o direito de reclamarem junto da justiça daquilo que é delas por contrato e por lei, surpreendeu-me com esta resposta:
Para quê?! O assunto fica resolvido, se ficar, daqui por uns dois ou três anos. E eu preciso da estabilidade e do dinheiro é agora! Que o meu futuro e o do meu filho se faz dia a dia! E, seja como for, não me faltará com que viver! Que Deus tem mais para dar que o Diabo para tirar!
Este fatalismo, esta descrença na justiça, aliada a uma atitude de submissão pela condição de emigrante, faz com que muitos empresários se aproveitem. E que explorem até ao tutano quem deles precisa para viver. Com uma impunidade imoral!
Há quem chame a isto “capitalismo desenfreado”! Eu diria que é a metade má da flexigurança que os nossos governantes apregoam.


Título: Re: Negócios!
Enviado por: Jose Costa em 07 / Mai / 2008, 03:50
Boas.
Não sou capaz de ler o tipo de mensagem acima escrita e ficar sem me pronunciar sobre a mesma. E o que tenho para dizer não é nada agradável de se ouvir, no entanto é o meu pensamento, a minha opinião. E neste caso só me ocorre uma ideia: a empregáda acima citáda só tem o que quer.

Notem no entanto que refiro "só tem o que quer" e não referi "só tem o que merece". Se bem que neste caso a última frase seria muito mais bem aplicáda. E passo a explicar.

A situação é banal. Acontece todos os dias. Não devia, mas é o que acontece. E acontece porque as leis existem mas não são cumpridas. As leis podem ser boas ou más, a justiça pode até demorar muito a ser cumprida neste país (quando não fica mesmo por cumprir), mas não é pelo facto de as pessoas não reclamarem os seus direitos nas devidas instituiçôes que as coisas vão mudar. Como já referi muitas vezes, as pessoas querem mudanças, mas não querem ser elas a mudar. È muito mais fácil esquecer o assunto, partir á procura de um novo emprego, do que se dirigir ão ministério do trabalho para apresentar queixa.

A coisa até podia não dar em nada, a empregada podia nunca ver a côr do dinheiro, mas se toda a gente reclama-se dos seus direitos quando de direito, em vez de andar por ai agora a falar mal do anterior patrão (a falar mal e com razão), se todos fizessem a sua parte, de certeza que aos poucos e poucos as coisas iriam mudar. As mudanças são lentas, mas acontecem.

Assim, a dita empregáda, lamentávelmente, ficou sem emprego, sem receber os seus direitos, mas só está a ter o que quer. Não quer trabalho, pelo que não se dá ão "trabalho" de apresentar queixa. E o mais certo é que daqui a uns tempos volte novamente a passar pela mesma situação, a de desemprego sem aviso, sem indemização, talvez até mesmo sem parte do ordenádo, e novamente sem querer ter o "trabalho" de apresentar queixa.

Era bonito que as coisas fossem diferentes, mas não são. E não são porque não queremos ter o "trabalho" de dar uma ajuda ão sistema. Queremos que os nossos direitos sejam respeitádos, mas já repararam que nós próprios não respeitámos os nossos direitos? Porque quem fica lezado e opta por não apresentar queixa, não quer saber dos seus direitos, quer apenas saber do seu bel-prazer.

Só para finalizar, os que pensam que falo da boca para fora, desenganem-se. A situação da empregáda já por ela eu passei, e mais que uma vez. Mas de todas elas apresentei queixa, e felizmente de todas elas recebi os meus direitos. Acredito que nem sempre seja assim, mas a proceder da forma que a empregáda procede, vai sempre acontecer o mesmo: empregádos na rua, direitos no batalha.

E não queiramos atribuir as culpas todas ãos governantes. A culpa deles é grande, mas não são os únicos culpados. Cada pessoa que não reclama os seus direitos, tem tanto ou mais culpa que os governantes. E não estou aqui a defender o governo A ou B. Boas.