
Tenho uma pedra no bolso.
Enfim, costumo tê-la no bolso, tal como também vai estando no meu saco e, quando calha, na mão.
Para além de uma deformação dos tecidos das vestes e de ser um acréscimo de peso na roupa ou nas costas, acaba por ser um tradutor de ideias, endógenas ou exógenas.
Um destes dias um colega, ao ver-me num momento de ócio a rolá-la nos dedos, exclamou para quem o rodeava:
“Olha, o JC tem uma pedra na mão! Cuidado, porque se chateia, ainda abre a cabeça a alguém!”
Algum tempo depois, mostrando-a a uma jovem adolescente, perguntou-me ela se andava com uma pedra para a atirar a alguém.
É sintomático, talvez, que na actual sociedade ver uma pedra isolada nas mãos de alguém, seja interpretado como um acto hostil.
Fica de parte, nestas e talvez em muitas outras mentes, a possibilidade de uma pedra, banal, branca e irregular, poder ter outros usos que não agressivos.
O poder ser um pisa-papeis não lhes passa pela cabeça. Tal como não se detêm a admirar os seus brilhozinhos, tão variáveis como bonitos.
Mais curioso ainda, se o for: a sua forma, pelo encaixe que pode assumir na mão, recorda de algum jeito um velho coup-de-poing, aquelas pedras que aprendemos na escola como usadas pelos pré-históricos como ferramentas ou armas.
Claro que ninguém o cita. Não apenas não o sentem, porque não a agarraram, como creio que nem se recordam do termo ou utilização.
Mas uma pedra, ou um pau, ou mesmo um claro e inequívoco monopé fotográfico são interpretados como instrumentos de violência ou agressão.
Triste, nesta constatação, é sabermos que os objectos não são nem bons nem maus, nem belos nem feios. Sê-lo-ão dependendo de quem os vê e de como os vê.
É pena que uma simples pedra seja considerada, antes de mais, uma arma!
Divirtam-se e aproveitem bem a luz
JC Duarte
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