
Os símbolos valem por isso mesmo: pelo seu significado.
Dois segmentos de recta, cruzados a noventa graus, têm diversos significados. Para um analfabeto, poderá ser a sua assinatura. Para os crentes ou místicos, a sua fé feita gráfica. Para os aventureiros, o local onde escavar o tesoiro. Se lhe dobrarmos as pontas, tanto poderá ser o símbolo do movimento perpétuo, da antiguidade, como da ideologia nazi, do século XX.
E o significado tanto pode ser positivo, como elemento de identificação e agregação, como pode ser negativo, motivo de separação ou segregação. Veja-se o facto de a Cruz Vermelha, por ser uma cruz, assume a forma de meia lua e o nome de Crescente Vermelho, nos países Islâmicos.
Símbolos!
Quando são adoptados têm uma ligação efectiva e real com acontecimentos, pessoas ou ideais. Com o passar dos tempos, os acontecimentos perdem-se na confusão da memória, dos contos e das fábulas. As pessoas morrem e delas ficam os seus feitos e nomes em que, dos primeiros sobrevêm apenas o que convém ser contado e dos segundos os populares ou alcunhas. E os ideais… Bem, dos ideais sobrevém apenas os que, no momento e no espaço, são convenientes de recordar, aplicar ou anular.
Alguns dos símbolos são mesmo adulterados, modificados, substituídos. Recorde-se que o primeiro símbolo do Cristianismo era um peixe.
Mas num símbolo – ou ícone – o que importa é o seu significado e a circunstância em que é usado ou ignorado.
É assim que não me espanta ou incomoda que o nosso presidente da República, na cerimónia solene de comemoração dos 33 anos da revolução de Abril, não tivesse na lapela um cravo vermelho. Pelo segundo ano consecutivo a mesma pessoa, ocupando o cargo mais alto da hierarquia portuguesa, optou por não exibir o símbolo da Revolução.
Em boa verdade, um cravo vermelho é apenas isso: um símbolo. E, no caso de Abril, surgiu por acaso, ainda que carregado de ideais, de nomes e de acontecimentos.
No caso específico do sr. Aníbal Cavaco Silva, não só não me espanta como me agrada. Trazer ao peito um cravo vermelho significa estar-se solidário com os ideais de Abril e da sua revolução. Ter um cravo ao peito e não ter esta atitude é hipocrisia.
Assim, é uma atitude honesta por parte deste senhor não trazer um símbolo que não acredita e cujos ideais, provavelmente, não segue.
Bem mais hipócritas são aqueles que estiveram na mesma cerimónia, exibindo um cravo vermelho no peito e que não seguem ou não sentem como seus os ideais da Revolução de Abril. Pior ainda, que os tentam abafar ou contrariar. Tal como parece ser e ter sido a atitude daquele que, por causa da Revolução de Abril, pode agora ocupar o cargo de Presidente da República.
Mas também há a possibilidade de ele ter tomado esta atitude por outros motivos.
Nos tempos que correm, encontrar um cravo vermelho é difícil. E, vivendo nós numa sociedade de mercado e de procura e oferta, os poucos existentes devem custar uma fortuna.
Poderá assim ser uma atitude de poupança a do sr. Presidente da República, o não gastar dinheiro em coisas triviais, numa época de contenção das despesas públicas.
Mas não acredito nisto!
Divirtam-se e aproveitem bem a luz
JC Duarte
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