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JC Duarte
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« em: 25 / Out / 2007, 11:50 » |
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Quando entrou, encheu o comboio com a sua presença! Não era apenas o garrido do amarelo-torrado com manchas castanhas dos largos trajes que trazia. Era toda ela, na magnificência dos seus vinte e tal anos, com o que se entrevia de possante que não de gordo sob os panos invulgarmente arranjados com que se cobria. A forma como tinha o cabelo apanhado, com uma aparente negligencia, com um simples pau espetado nele um pouco acima da nuca, pouco menor que um lápis, fazendo saltar daquele nó fiapos de cabelo orgulhosamente subidos, numa rebeldia estudada. O traço bem definido das sobrancelhas, não por cosméticos mas antes sim por um aturado trabalho de depilação, que encimavam uns olhos com uma muito ligeira mas bem escolhida sombra nas pálpebras, e um traço escuro, bem mais forte que a pele, que contornava o ovalado das órbitas. A pele lisa e acetinada, sem uma visível imperfeição, rasgada em baixo por uma boca não demasiadamente carnuda mas bem contornada e brilhante de um baton de um vermelho indefinido e sóbrio. A passada flexível e ágil com que se deslocou da porta para o banco escolhido. Ela encheu o comboio!
E o comboio ia razoavelmente vazio. Eu diria que apenas com menos de um oitavoo dos bancos ocupados. Os de frente para a marcha e junto às janelas, como é habitual acontecer. Ela sentou-se num lugar junto à coxia, com a mesma orientação dos restantes passageiros, excepção feita aos que, como eu, ofereciam as costas ao maquinista. A seu lado, estava um cavalheiro. Seco de carnes, cabelo branco com uma calva bem notória, ia lendo o jornal. A seu lado, uma mala/pasta de couro. Com a escolha de lugar que ela fez, toda a sua magnificência se desmoronou! Para se sentar no lugar elegido, ainda que a maioria dos demais vazios, obrigou o homem a mudar a pasta do banco a seu lado para o que lhe ficava vago em frente. Mas não se ficou ela por aqui. Impávida e serena, apesar do olhar não muito satisfeito do seu novo vizinho de viagem, tratou de vasculhar a sua mala grande até encontrar o telemóvel. E, para tal, foi abrindo os braços, com gestos amplos, batendo e sacudindo as largas e opulentas mangas coloridas no cinzento jornal pacatamente lido ao lado. A tal ponto foi esbracejando e abanando o panejo que o obrigou a fechar o periódico, porque impossível de ler com os encostos e safanões. Em encontrado o aparelho de comunicação, iniciou uma conversa com alguém, com uma voz grave e sonora, sugestiva mesmo. E com a mesma veemência com que argumentava com a voz, ia gesticulando como se o seu interlocutor estivesse na sua frente. Para cima e para baixo, para dentro e para fora, braços e mangas. E, com o “para fora”, ia batendo nos braços e ombros do vizinho que, atónito, a ia olhando de lado. E a intensidade da conversa ia aumentado, pelo aumento da intensidade do gesticular. Não percebi de que se tratava, que o meu domínio de línguas não desce a sul do Algarve. Mas não parecia muito satisfeita. E a sua “não satisfação” contagiou o homenzinho a seu lado que, a dado momento, pondo o jornal sob o braço e pegando na mala/pasta, se levantou do banco, saiu para coxia e procurou outro lugar vago, alguma distancia. O suspiro de alívio ao sentar-se, bem como o olhar que deitou àquela figura feminina, magnifica e muito bem cuidada, exprimia bem a total ausência de simpatia para com ela. Mas sem uma palavra de comentário. Ainda mal se tinha sentado, sorri ela e desliga o telefone, guardando-o. E com um manejo hábil de corpo, muda de lugar, da coxia para a janela. Completamente tranquila, como se nada de especial se passasse. Excepto um ligeiro toque de troça no seu sorriso discreto.
Não gostei da manobra! Desde o início que não estava a gostar e quando a vi sorrir, detestei-a mesmo. Não era comigo, mas incomodou-me. Porque eu mesmo já tinha sido objecto de semelhantes estratégias em outras ocasiões, ainda que infrutíferas para quem as praticou. Fitei com os meus olhos (enfim, apenas o que vê alguma coisa) nos seus bonitos e sedutores. Positivamente, fuzilei os seus olhos com o meu olhar, sem apelo nem agravo. Ela não gostou, mas não era suposto que gostasse. Nem um pouco de preferência! Quando saí na minha paragem, o sorriso já se lhe tinha apagado, os olhos estavam mortiços e evitavam os meus a todo o custo, fugindo como o diabo da cruz. Acredito que tenha percebido a minha mensagem. E espero, sinceramente que sim. E que, da próxima vez que andar de comboio, não enxote outro passageiro por cobiça do lugar que ele ocupe. Que, se por acaso for eu ele, não serão os seus magníficos dotes femininos que desculparão as manobras feias que poderá vir a praticar. Pode até sair-lhe o tiro pela culatra!
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