
Quem diz que mudar é mau comete um erro do seu próprio tamanho.
Mudar é bom, desde que saibamos e queiramos tirar partido do que de novo encontramos. Ou podemos encontrar.
Por algum tempo, os meus horários de trabalho mudaram. Não com a radicalidade de deixar de trabalhar das 16 às 24 ou mais e passar a ser das 5 às 13 ou mais, mas uma mudança mais calma. Mas que implica já estar em trânsito quando habitualmente estou a caminho da bica com bolo matutino.
E se o organismo não gosta da quebra de rotina de sono, a cabeça agradece. É que, desta forma, passo a ver o que desde há muito vejo – a minha rua, o restante trajecto, a chegada ao trabalho – com outra luz.
Ângulos opostos, outras sombras, outros contrastes, evidenciando o que não costumava notar, escondendo outros detalhes.
Nesta mudança de hábitos e de visão, muito do que vejo parece novidade, agradável, fotografável! Mas…
Será que o é, de facto? Será que o que vejo e sinto justifica o seu registo? Será a diferença de luz motivo para que as mesmas ruas, os mesmos prédios, as mesmas portas e janelas passem de pouco significantes a dignos de nota?
Por outras palavras, será que eu, que escrevo com luz, que a uso como tinta e à objectiva como pincel, devo fazê-lo apenas porque são novos – ou aparentam sê-lo?
Provavelmente um photógrapho diria que sim, que as vinte e quatro horas do dia têm luzes diferentes e que é isso que justifica a actividade.
Só que eu, como já disse noutra ocasião, talvez não seja um photógrapho mas antes um iconógrafo, fazendo com a fotografia ícones do que vejo e sinto.
E se há ocasiões em que num local e com uma dada luz, nada isso me diz ou sugere, noutras, nas mesmas condições, não resisto a fotografar, que tudo o que vejo me provoca sentires e pensares.
Assim, o que me importa realmente não é a luz ou o assunto apenas por si, mas a sua conjugação comigo mesmo e com o estado de espírito com que olho o que vejo.
Talvez que, e por isso mesmo, toda e cada fotografia que faço (ou ícones que invento), mais que representarem os objectos que reflectiram a luz para a minha câmara, representam os meus sentimentos projectados naqueles objectos.
E, tal como com a caneta e tinta conto histórias de acordo com o que penso e sinto, com a luz e a objectiva escrevo o que penso e sinto.
A photographia não regista e mostra o que está à frente da objectiva mas antes o que está atrás dela!