Perversidades
04 / Jul / 2008, 21:13 *
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Autor Tópico: Perversidades  (Lida 23 vezes)
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JC Duarte
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« em: Hoje às 11:52 »

Porque faltara a energia eléctrica, não pude aceder às notícias na web ou na TV de manhã. Assim, e ainda que a contra-gosto, tive que recorrer a um jornal disponível no comboio, a caminho do trabalho.
Tratava-se de “O destak”, um daqueles jornais diários e gratuitos que pululam e poluem a cidade e as mentalidades.
O primeiro artigo que li era de opinião. Com o subtítulo “ Carreira”, era assinado por João César das Neves, aqui identificado como economista e professor universitário.
Os títulos nobiliários ou académicos nunca me intimidaram e, depois de ler este texto, menos ainda. Face ao nele exposto, explícita ou implicitamente, até os pelos da ponta da língua se me arrepiaram, sendo que o termo mais suave que encontro para o classificar é o “Obsceno”!
Podem-no ler AQUI.
Confesso que tentei, várias vezes, escrever uma contestação ao que ali li, mas acabei sempre por ficar confrontado com longos e acalorados textos versando economia de mercado, relações laborais, conceitos de educação e aprendizagem, felicidade, governação e cidadania. Não creio que tenham cabimento num blog, pelo que tentarei ser sucinto. Capacidade que, os que por aqui vão passando, sabem que eu não tenho.

Aquilo que se recebe por se trabalhar, quer seja como salário, quer seja enquanto empreendedor individual, não tem que ser por a actividade ser “difícil, árdua e trabalhosa”. Recebe-se o que se recebe por isto ser o fruto da actividade, quer este seja integralmente a favor de quem a pratica, quer seja a repartição entre empregador e empregado.
Considerar que o trabalho tem que ser “Difícil, árduo e trabalhoso” ou, por outra palavras, penoso, é uma atitude profundamente derrotista perante a vida em geral e a participação na sociedade em particular. Se ninguém fizer o que quer que seja para a comunidade, esta deixa de o ser, deixando o ser humano ter a característica de gregário para passar a ser individual, como o condor ou a serpente.
A felicidade não é algo que nos caia no colo, qual maná no deserto, mas o encontrarmos satisfação no que temos e somos, sem deixar de a buscar ainda mais longe e melhor. Porque, se não conseguirmos encontrar satisfação ou felicidade no quotidiano, por pouco que seja e em cada uma das tarefas que executamos, o resultado é a permanente amargura, a frustração eterna, o mau humor e as péssimas relações pessoais que daí advêm.
Os jovens são hoje obrigados a tomar decisões importantérrimas no que ao seu futuro concerne. Têm que definir, ainda antes da idade legal para votar ou conduzir um automóvel, qual a carreira que deverão seguir. E, alimentados por uma organização social autofágica e baseada no status e na aparência, procuram carreiras que se encaixem nesta linha de pensamento, no lugar de encontrarem outras que os satisfaçam no dia-a-dia. Os adultos que os orientam – ou deveriam orientar – mantêm a ilusão que apenas se é alguém se e só se for um diplomado uma qualquer universidade, não importa qual o curso. E, aquilo que acontece por cá, bem como na maioria dos restantes países ditos neo-liberais, é ver gente com especializações supérfluas, excesso de diplomados em algumas áreas e enormes carências noutras. Aqueles que por nós são pagos para gerir a coisa pública – o governo – deveriam fazer antevisões das necessidades em termos ocupacionais a médio e longo prazo e incentivar os jovens a seguir essas linhas de carreira profissional.  Para suprir carências em algumas actividades, eliminar excessos noutras e procurar algum tipo de equilíbrio entre todas.
Se o garantirmos a existência ou sobrevivência implica algum tipo de actividade, encontrar satisfação nela, quer seja pelo prazer directo em o fazer, quer seja pelo reconhecimento dos nossos iguais da sua utilidade, é uma forma de estarmos felizes naquele terço do dia em que a fazemos. Que, naturalmente, se repercute nos restantes dois terços.
Dizer aos jovens que a parte da vida relacionada com o trabalho é má e que devemos dela fugir é, no mínimo, criar nos outros o mesmo tipo de frustrações que quem o diz poderá ter. E, isto, é perverso e obsceno!


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Divirtam-se a aproveitem bem a luz
JC Duarte

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