
É comum perguntarem-me porque não faço fotografia em Preto & Branco. Dependendo de quem me pergunta, são várias as respostas que posso dar.
A mais simples, meio filosófica e que uso com quem pouco ou nada sabe de fotografia, resume-se a isto: “A vida é em cores”.
Claro que é redundante e que vemos as cores da vida de acordo com os nossos próprios estados de espírito e emoções. Por vezes, monocromáticos ou em Preto & Branco.
Uma outra resposta, meio técnica, é que é difícil garantir reproduções fieis de P&B. Os simples ajustes de brilho e contraste, por pequenos que sejam, podem deitar a perder todo o trabalho original. E, sendo que nos últimos tempos, me tenho dedicado à fotografia em suporte electrónico, a questão da calibração dos monitores onde elas são vistas é vital. Para já não falar que um monitor dificilmente poderá reproduzir os meios tons e as profundidades dos papeis fotográficos.
Assim, só a sugestão de se procurar imagens de Ansel Adams ou outros mestres na web me deixa arrepiado. Raramente as digitalizações são realmente cuidadas, para não falar de novo na questão dos monitores. Os trabalhos sublimes, em que os autores tiveram o máximo cuidado em obter toda a gama do Branco puro ao Negro profundo, apenas impressas, e com a certeza que a edição seria aprovada por eles.
Para quem está mais dentro da questão do fazer da imagem, acrescento um outro motivo: pensar em P&B.
Fotografar (entenda-se do click inicial à imagem final), em P&B é muito difícil, muito mais difícil que em cores. Nestas, coloridas, para além da composição clássica (equilíbrio, linhas, pontos fortes, centros de interesse) bastará que existam contrastes de cor, quer pela saturação, quer pela complementaridade ou oposição, para que uma fotografia se torne, senão boa, pelo menos atraente ou capaz de comunicar.
Mas fotografar em P&B implica “VER” o resultado final sem a componente cor. Tons que sejam contrastados quando coloridos, evidentes, se reduzidos a preto, branco e cinza podem confundir-se, neutralizarem-se, tornarem-se iguais. E o que era evidente em cores morre em P&B.
É, assim, necessário que na tomada de vista a questão da composição seja muito cuidada, levando em linha de conta aquilo que se vê com os olhos e aquilo que se vê com a mente, imaginando o resultado final monocromático.
Por muito boas que possam ser as técnicas usadas posteriormente, se não se “VIR” em P&B na tomada de vista, poucas serão as imagens convertidas que resultarão boas ou convincentes.
Por mim, que não tenho arte ou engenho e que não chego aos calcanhares dos Mestres (bem que gostaria), fico-me pela cor. Uso-a mais ou menos saturada, com maior ou menor contraste ou continuidade, de acordo com o que vejo ou sinto. E mesmo quando, raramente, recorro à ausência de cor, é uma forma de a usar, deliberada.
Mas, para quem queira enveredar por esta via, sugiro uma abordagem:
Durante uns tempos, e enquanto durar o estudo ou investigação sobre o monocromatismo, abstenham-se de usar a cor como suporte fotográfico. Ao fotografar, pensem directamente em P&B e não em cores e saturações. Misturar os dois métodos raramente dá bons resultados. Pelo menos comigo.
Os meus dois cêntimos de opinião.