
Algures no Oriente, talvez China, talvez Índia, não posso precisar, existe um vale especial. Profundo, rochoso, nas suas paredes encontram-se grutas.
Artificiais, porque feitas pelo Homem, são templos a Buda. No seu interior, quem as construiu esculpiu monumentais figuras da divindade, directamente na pedra, do chão ao tecto.
O que estas esculturas têm de especial é que são deformadas. Não o são à-toa nem é perceptível à primeira vista. O que acontece é serem bem mais largas no seu topo superior que no inferior. As cabeças são muito maiores que os pés.
Porque motivo? Sendo as cavernas, ainda que altas, estreitas, se as figuras fossem normalmente proporcionadas não seria possível vê-las harmoniosamente. Por falta de recuo de quem as observasse. Desta forma, ainda que vistas de bem de perto, serão vistas como se de normais se tratassem.
Isto foi construído faz muito tempo, não sei se centenas se milhares de anos atrás.
Bem mais recentemente, na segunda metade do séc. XX e no EUA, foi construído algo exactamente oposto.
Num parque de diversões, e porque havia limitações à altura máxima de construção, um castelo foi feito com uma geometria incomum. À medida que se afasta do chão, todos os elementos das fachadas vão diminuindo de tamanho, ainda que sejam aparentemente iguais. Janelas, portas, ameias…
Desta forma, ao ser observado do exterior, parece bem mais alto do que é na realidade.
Estes são alguns exemplos de como, na escultura ou na arquitectura, a perspectiva pode ser forçada, alterada, adulterada, enganadora. Com objectivos precisos, joga-se com ela e com as suas modificações para criar ilusões, sensações, formas de ver. Perspectivas!
Encontramos o mesmo efeito e trabalho na pintura. Para além dos frescos da arte sacra, em que as perspectivas são alteradas ou ajustadas em função das alturas das paredes ou das curvaturas dos tectos, há o mais que conhecido M. C. Escher, com os seus “trompe l’oeil”. Figuras impossíveis, perspectivas absurdas, apenas realizáveis com o seu pincel ou cinzel.
Nós, pobres fotógrafos, estamos limitados a uma perspectiva geométrica, fornecida pela objectiva. Sempre fiel ao que o olho vê, é complicado fazer adulterações.
Claro que, para os que ainda trabalham com o grande formato, há o recurso ao “shift” ou “deslizamento” da objectiva ou do chassis da película. Também, para os que se ajeitam com a câmara escura, se pode recorrer a impressões não perpendiculares, com o que isso implica de exposição e nitidez. Para os mais modernos, familiarizados com o tratamento digital, também há o recurso ao “scale”, “distor”, “perspective”, “skew”…
De uma forma ou de outra, podemos alterar ou transformar aquilo que a objectiva nos mostra, aproximando-o daquilo que a mente vê.
No entanto, (e há sempre um “no entanto”) o público tem dificuldade em aceitar estas manipulações. Dela, da fotografia, espera-se fidelidade ao real ou, em alternativa, subjectividade e alterações bem notórias e assumidas como ficção.
As pequenas nuances possíveis, como os ajustes de perspectiva ou alterações possíveis em brilhos, contrastes, cores, são consideradas falsificações, mentiras.
E nós, fotógrafos, vemo-nos presos no media que escolhemos, por opção ou por falta de opções. Presos nas interpretações do público, presos nos formatos. Presos nos suportes. Presos nas perspectivas. Presos!
Ainda que a fotografia possa ser – e é-o – uma forma de libertação, um grito de afirmação, será sempre feito no pátio de recreio da prisão das convenções. Excepto para alguns, raros, a quem chamam de Mestres ou Génios!
Haja coragem para sacudir as grilhetas!