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JC Duarte
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« em: 11 / Dez / 2007, 11:58 » |
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Fotografar é fácil! Basta que a câmara funcione, que o assunto esteja lá, que apontemos e primamos o botão! Tão simples quanto isto! Tudo o resto que envolve a fotografia são complicações levantadas pelos fotógrafos ou, vistas as coisas de outra maneira, são soluções para resolver questões complicadas. No caso da fotografia em análise, a questão levantou-se desde logo porque só existia metade do assunto a fotografar: a boneca. Faltava tudo o resto que a envolvesse e, conjugado com isso, quanto da boneca se iria mostrar. Quando pus o olho nela o que me sobressaiu foram os olhos e a existência de feições trabalhadas, com rugas e covinhas. O resto do corpo, assumidamente de bebé, é interessante mas pouco apelativo. Mas faltava o que a cercasse. E isto dependia daquilo que eu quisesse contar ou mostrar com a fotografia. Mas quando, ontem de manhã no café, escrevi o texto que a acompanha, tudo se tornou bem simples. Estaria a falar da prática ancestral e horrenda da mutilação genital feminina, em África e no Médio Oriente, pelo que teria que deixar (à boneca) sozinha e indefesa. Fundo liso, negro, pesado.
A partir daqui, foi pôr a câmara e tudo o resto a trabalhar. Fixei-a com um “Magic arm” da Manfrotto, mas poderia tê-la amarrado às costas de uma cadeira, por exemplo, que o efeito seria o mesmo. Atrás dela, a um metro, mais coisa menos coisa, coloquei uma cartolina preta. Esta não ficou perpendicular ao eixo de visão ou objectiva, mas antes um pouco enviusada. Isto porque, como fonte de luz, usei a janela, larga e tapada com um quebra-luz branco opalino, que me dá uma luz difusa muito bonita, com sombras visíveis mas não muito delineadas. Ao angular a cartolina, evitei que a luz nela incidisse directamente, indo assim garantir o negro profundo que queria.
Mas, olhando para o conjunto, sentia-se pouco a profundidade desejada. Boneca e fundo eram um só, sem relevo. A mão colava-se com a cara, a cabeça com a cartolina. Uma lâmpada de 150 W colocada por cima da cabeça resolveu o problema, tendo apenas o cuidado de que a sua luz não incidisse no fundo. Claro que isto tinha uma questão adicional: a diferença de cor na luz da janela para a lâmpada. Mas o tom quente que esta provocava dava-me o toque de inocência e fragilidade que eu pretendia.
Decidida e resolvida esta questão, fiz uma primeira imagem. Propositadamente, coloquei-a um pouco à esquerda, olhando para a direita. Pondo-a a olhar para um futuro distante se atingível. Mas não gostei! Era demasiado boneca, demasiado brinquedo, faltava-lhe o impacto que queria provocar em contraste com o texto. E perdia-se o olhar, aquele que me tinha chamada a atenção em primeiro lugar. Rodei-lhe o corpo, fi-la olhar directamente para a objectiva e para o observador. Bem centrada no enquadramento, apenas um pouquinho desequilibrado com o braço e mão que falam para quem vê. E ali estava o que queria, uma ponte entre a inocência de uma simples boneca e as atrocidades do texto.
É que, afinal, fazer uma fotografia é muito fácil. Basta sabermos o que queremos contar!
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