Tristezas
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Autor Tópico: Tristezas  (Lida 333 vezes)
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JC Duarte
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« em: 15 / Dez / 2007, 10:12 »

São sinais dos tempos!

Faz muito que uso barba. Não sempre, que a pele nem sempre gosta; Nem sempre muito grande, que há que crescer e dá trabalho; Nem sempre branca, que começou por ser preta; Mas costumo usar a cara coberta de pelos.
Na rua, nos cafés, nos transportes ou noutros locais públicos, os pequenotes ficam a olhar para mim. Uns, com medo, agarram com força a mão de quem os acompanha e escondem-se atrás das suas pernas; outros, com curiosidade, arremelgam os olhos espantados com a novidade; outros ainda olham com força, tentando perceber o que se passa, achando graça à situação.
Seja qual for a reacção, e a menos que seja a de medo, costumo interagir com eles. Um sorriso, um piscar de olho, um fazer dançar o cabelo ou o chapéu se o tiver posto.
A resposta costuma ser igualmente um sorriso, um tentar de piscar de olho, que alguns ainda não aprenderam e, muitos, tentam também fazer algo com o cabelo, mas isso é truque meu.
O pai ou a mãe que os acompanhe, apercebendo-se da coisa, olha para mim, para a criança, para mim de novo, esboça um sorriso cúmplice, diz uma laracha para baixo, e a coisa termina aqui. Cada um vai à sua vida, deixando pelo caminho os vestígios de um sorriso e uns segundos de boa disposição.

Mas os tempos são outros e já nada se passa assim.
Quer seja eu ou a criança a iniciar a comunicação gestual, quando o adulto se apercebe da situação fuzila-me com os olhos, dá um puxão no braço miúdo, sem que este perceba o que se passa e qualquer tentativa de boa disposição morre logo ali.
É que, até há uns decénios atrás nas aldeias, eram os ciganos que vinham roubar as crianças. Agora, em qualquer lugar, qualquer desconhecido que olhe para um pequenote é logo classificado como monstro pedófilo capaz de, logo ali, fazer as maiores barbaridades às crianças.

Sabemos que o mundo não é um mar de rosas. Nunca o foi e, pela tendência, não parece melhorar. É de louvar que os adultos acautelem a segurança das crianças a seu cargo, protegendo-as dos perigos que as cercam.
Mas, intoxicados por notícias, rumores e boatos, tomam o todo pela parte. E qualquer um que tenha um gesto de amabilidade ou simpatia é de imediato rotulado de perigoso a abater.
Este comportamento, este medo parental, passa para os filhos, mata-lhes a inocência e a infância. E, aos poucos, os sorrisos vão-se transformando em esgares de medo, os gestos traquinas em gestos de repulsa e a boa disposição vai abandonando ruas e jardins.
Que comportamento terão, no futuro, estas crianças hoje cheias de medos?

Quanto a mim, bem, vou deixando de sorrir aos pequenotes, de lhes piscar o olho e guardo para mim como se faz dançar o cabelo. Tristemente!
« Última modificação: 16 / Dez / 2007, 12:15 por JC Duarte » Registado

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Divirtam-se a aproveitem bem a luz
JC Duarte

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« Responder #1 em: 16 / Dez / 2007, 03:26 »

Meus sentimentos Amigo!

Atrevo-me a chamá-lo de amigo após a sofrida leitura de seu Post!
Não que de mim precises ... ou de minha amizade ... mas seu texto sim!

Talvez pela "melancolia" gramatical que o Português falado e escrito em Portugal emana. Talvez pela tristeza que este invoca ... talvez porque já não haverá para quem o amigo possa emprestar sorrizos. Bem ... então precisamos todos de amigos ... se é que existem. De facto!

Aprendi os prazeres da leitura com um Senhor chamado Graciliano Ramos!

Preguiçoso que sou, talvez vítima de minha inescrupusola e corrupta geração, não levei à diante, com rigor, o hábito quem dera "involuntário" da leitura ... sou apenas um medíocre homenzinho. Hábitos medíocres, sonhos mais medíocres ainda! Anos seguidos julguei não o ser ... mas hoje ... adulto e com alguns "centimos" de conhecimento ... sou medíocre!

Aos que não o julgam ser ... leiam Rui Barbosa ... a Carta ... um livrozito de 34 páginas ... . Se conseguirem ao final não se intitularem medíocres ... invejo-vos!

Caríssimo Duarte: há tempos não leio nada tão primorasamente escrito. Obviamente gostaria que fosse apenas mais um de seus "Contos" ... posso estar enganado ... mas é tudo verdade não é mesmo!?

Tão primoroso que senti-me um "barbudo" ... no metro ...

... tão primoroso que não posso negá-lo verdadeiro!
... tão primoroso que as entrelinhas ... as palavras escondidas que vozmecê deixou escapolir ... falam do quão medíocre somos ... e do quão infelizes serão nossos filhos!

A única alegria desta leitura é reconhecer em suas palavras a voz de Gracilianos ... Barbosas ... Rouseaut's!
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Edgar Feldman
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« Responder #2 em: 16 / Dez / 2007, 04:09 »

Também faz muito que uso barba. Também faz muito que gostava de  fazer cócegas na barriga das crianças. Agora tento nem olhar para elas. A barba vou aparando mês a mês, que a preguiça é muita.
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