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JC Duarte
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« em: 15 / Dez / 2007, 10:12 » |
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São sinais dos tempos!
Faz muito que uso barba. Não sempre, que a pele nem sempre gosta; Nem sempre muito grande, que há que crescer e dá trabalho; Nem sempre branca, que começou por ser preta; Mas costumo usar a cara coberta de pelos. Na rua, nos cafés, nos transportes ou noutros locais públicos, os pequenotes ficam a olhar para mim. Uns, com medo, agarram com força a mão de quem os acompanha e escondem-se atrás das suas pernas; outros, com curiosidade, arremelgam os olhos espantados com a novidade; outros ainda olham com força, tentando perceber o que se passa, achando graça à situação. Seja qual for a reacção, e a menos que seja a de medo, costumo interagir com eles. Um sorriso, um piscar de olho, um fazer dançar o cabelo ou o chapéu se o tiver posto. A resposta costuma ser igualmente um sorriso, um tentar de piscar de olho, que alguns ainda não aprenderam e, muitos, tentam também fazer algo com o cabelo, mas isso é truque meu. O pai ou a mãe que os acompanhe, apercebendo-se da coisa, olha para mim, para a criança, para mim de novo, esboça um sorriso cúmplice, diz uma laracha para baixo, e a coisa termina aqui. Cada um vai à sua vida, deixando pelo caminho os vestígios de um sorriso e uns segundos de boa disposição.
Mas os tempos são outros e já nada se passa assim. Quer seja eu ou a criança a iniciar a comunicação gestual, quando o adulto se apercebe da situação fuzila-me com os olhos, dá um puxão no braço miúdo, sem que este perceba o que se passa e qualquer tentativa de boa disposição morre logo ali. É que, até há uns decénios atrás nas aldeias, eram os ciganos que vinham roubar as crianças. Agora, em qualquer lugar, qualquer desconhecido que olhe para um pequenote é logo classificado como monstro pedófilo capaz de, logo ali, fazer as maiores barbaridades às crianças.
Sabemos que o mundo não é um mar de rosas. Nunca o foi e, pela tendência, não parece melhorar. É de louvar que os adultos acautelem a segurança das crianças a seu cargo, protegendo-as dos perigos que as cercam. Mas, intoxicados por notícias, rumores e boatos, tomam o todo pela parte. E qualquer um que tenha um gesto de amabilidade ou simpatia é de imediato rotulado de perigoso a abater. Este comportamento, este medo parental, passa para os filhos, mata-lhes a inocência e a infância. E, aos poucos, os sorrisos vão-se transformando em esgares de medo, os gestos traquinas em gestos de repulsa e a boa disposição vai abandonando ruas e jardins. Que comportamento terão, no futuro, estas crianças hoje cheias de medos?
Quanto a mim, bem, vou deixando de sorrir aos pequenotes, de lhes piscar o olho e guardo para mim como se faz dançar o cabelo. Tristemente!
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