Salta-me a tampa!
08 / Jan / 2009, 03:29 *
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Autor Tópico: Salta-me a tampa!  (Lida 734 vezes)
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JC Duarte
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« em: 04 / Jan / 2008, 01:18 »

Companheiros!
Dos que este espaço visitam, quantos já trabalharam ou trabalham em vídeo? E quantos já trabalharam ou trabalham em cinema?
Entenda-se por vídeo o registo da imagem resultante da transformação de luz em impulsos eléctricos, em CCDs ou equivalente. E por cinema o registo fotoquímico da luz em cristais de prata, mais tarde objecto de processamento químico por banhos, do qual pode resultar uma imagem positiva ou negativa num suporte transparente.
Quantos já usaram um e/ou outro?
Por mim, posso dizer com orgulho que, ainda que a minha actividade profissional se baseie no vídeo, já tive a minha quota-parte de trabalho em cinema. Pequena mas real!
E nunca me passará pela cabeça confundir cinema com vídeo, película com suportes ópticos ou magnéticos.
Da mesma forma que me é impossível confundir uma câmara Sony, ou Panasonic, ou Canon com uma Paillard ou uma Arri. Ou uma cassete com um magasin. Ou a utilização sistemática e indiscriminada de objectivas zoom com a multiplicidade de objectivas primárias, de distância focal fixa e as respectivas resoluções. Ou… Ou… Ou…

Companheiros: que o pacato do cidadão anónimo que do audiovisual apenas quer e sabe consumir, confunda “gravar” com “filmar”, “fazer um vídeo” com “fazer um filme”, entendo. Indo mais longe, entendo e aceito. Que dele só quero que veja e oiça o que fazemos e, preferencialmente, que goste e consuma que é disso que vivemos.
Agora que os profissionais confundam os termos e, com eles, as técnicas e equipamentos, que misturem na mesma palavra película com fita magnética ou memórias digitais, isso já me faz saltar a tampa!

Para os mais experientes ou antigos deixo um lembrete, para os mais novos ou menos experientes deixo um desafio:
Tentem comparar os orçamentos de uma produção em vídeo com os de uma produção em filme, comparem as equipas respectivas, os métodos de trabalho de captação e produção posterior.
E, depois, continuem a usar os mesmos termos indiscriminadamente, se tiverem a coragem!
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Divirtam-se a aproveitem bem a luz
JC Duarte

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« Responder #1 em: 04 / Jan / 2008, 01:42 »

Muito bem .... Applause cada coisa no seu lugar....

Infelizmente película só me passou pelas mãos na moviola e foi num curso de montagem.... (já agora o vídeo não se monta edita-se)  Very Happy
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Jose Costa
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« Responder #2 em: 04 / Jan / 2008, 06:39 »

Boas.

Não querendo desvalorizar o ponto de vista do JC Duarte, discutir a diferenciação de "filmar" e "gravar" é o mesmo que discutir o sexo dos anjos. O termo "filmar" vem do cinema, do negativo, dos filmes, enquanto que "gravar" vem do videotape, da gravação electromagnética. Discutir os termos atrás citados é, para mim, o mesmo que discutir se dizer "câmEra", "câmAra" ou "máquina de filmar". Discusão que já por aqui houve, diga-se de passagem. (Devem entender o termo "discusão" como troca de ideias e de opiniôes, não de desavenças).

A diferença existente entre os op. de câmera destacádos para cobrir a guerra do vietname nos anos 70, dos destacados 30 anos mais tarde para cobrir a guerra do Kuweit, da do guarda que registou a execução de Saddam Hussein em 2007, é apenas uma: tecnologia. Nos anos 70 os op. de câmera registavam o desenrolar da guerra em pelicula. Nos anos 90, em fita. Em 2007, foi utilizado um telemóvel para o registo da execução. Em ambos os casos, eu digo que filmaram. Filmar tem o mesmo significado que capturar imagens. Filmar é o acto de capturar imagens em tempo real. Independentemente do suporte utilizado e o objectivo a que se destina as imagens.

Conotar "filmar" com pelicula, aparentemente pode estar correcto, e está. Mas a ser assim, que termo vamos atribuir a quem passou ou vai passar a fazer filmes com câmeras digitais? Deixa-se de dizer que "Está a filmar um filme" e passa-se a dizer "Está a gravar um filme"? È que para mim, ao ler tal noticia, passo a interpretar como alguém estando a gravar em DVD ou em HDD um filme que está a passar na TV.

O termo "filmar" está largamente difundido e é aceite como sinónimo de captura de imagens, quer seja em pelicula, quer seja em video. A captura de imagens em digital não é filmagem, é gravação. Mas não encaro como errádo o chamar de "filmar" a uma gravação com câmera de video. Mais grave é chamar á fotografia convencional de "fotografia analógica". De analógico não tem nada, só de película fotossensível (quimica).

A questão dos orçamentos é uma falsa questão. Eu lembro que as telenovelas brasileiras são filmadas em video, e nem por isso o orçamento é inferior a muitos filmes realizados em pelicula. Filmar não pode ser visto como sinónimo de filme, de pelicula. Tem que ser visto por um prisma mais vasto, uma vez que a tecnologia está sempre a evoluir.

Quanto á afirmação do António Cristo "...o vídeo não se monta edita-se", devo dizer que efectivamente o video edita-se. Mas também ele tem montagem. A montagem não é mais que a organização dos planos, das sequências de video, com vista a passar uma mensagem ou emoção ao tele-espectador. Aliás, devo dizer que principalmente nos Estados Unidos, existe a profissão de editor de video e o de montador (não sei se é este o nome correcto). O editor limita-se a seguir as instruçôes da pessoa encarregue da montagem. Na Europa, e por questôes de custo, a mesma pessoa assume as duas funçôes.

No meu dia-a-dia utilizo as palavras filmar, gravar, edição e montagem, em função da mensagem que quero transmitir. E se bem que reconheça que a captura de imagens em digital não é filmagem, na acepção da palavra, também aceito como correcto afirmar "Vou filmar os castelos", mesmo quando dito por um profissional e quando tal captura é feita recorrendo ao video. Mas isso sou eu, que não dou por certo qualquer conhecimento, e gosto sempre de me questionar e questionar os outros. Tal como alguém escreveu "Não condene a opinião do outro porque ela difere da sua. Vocês dois podem estar errados." Boas.
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« Responder #3 em: 04 / Jan / 2008, 16:03 »

Achei interessante o assunto e até me levou a uma consulta ao dicionário de Priberam de Português

Filmar: reduzir a filme;
           registar numa fita cinematográfica.

e o que é filme?

Filme: fita cinematográfica, que recebe por impressão imagens em movimento.

Provavelmente a evolução das tecnologias e dos termos que a sua utilização implica é mais rápida do que a das definições da língua.

Em termos de opinião meramente pessoal, prefiro o termo filmar para o registo em película cinematográfica e o de gravar para o registo em fita magnética, HD ou Solid State. No entanto aceito a discussão sobre o que se chamar a uma história feita totalmente em meios vídeo. Não é um filme? Creio que sim, no entanto não está registado em película cinematográfica. Isto porque a utilização popular acabou por associar o termo "filme" a uma história contada num ecran.

Os linguistas têm de começar a dar umas voltinhas pelo portugalvideo.com, tem aqui trabalhinho para eles  Very Happy Very Happy Very Happy
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« Responder #4 em: 04 / Jan / 2008, 22:25 »

Citar
Aliás, devo dizer que principalmente nos Estados Unidos, existe a profissão de editor de video e o de montador
.

Ou seja e melhor dito e lido consultem:
http://www.ace-filmeditors.org/newace/home.html

Abraço

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JC Duarte
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« Responder #5 em: 05 / Jan / 2008, 01:43 »

Só mesmo para lançar a confusão (ou, se preferirem, mais achas para a fogueira):
Há uns tempos atrás falava-se com frequência em “telefime”. O que raio vem a ser isto?! Filme para televisão? Filme à distância?
Fácil: rodado em película cinematográfica, a estrutura da narrativa era pensada no consumo televisivo. A sua duração total, as curvas de interesse ajustadas aos tempos de duração de cada parte e as respectivas interrupções publicitárias, as escalas de planos adaptadas ao pequeno ecrã, em que os planos inteiros passam a americanos e os próximos a grande plano, a escolha dos intérpretes não passava por estrelas de cinema mas antes por figuras populares na Televisão… Os próprios meios técnicos usados e os orçamentos respectivos eram bem mais reduzidos, pensado nas receitas bem menores que se obtinham na teledifusão em vez das salas de cinema.
Isto hoje deixou de ser feito. Se, por um lado, os registos electrónicos e as respectivas pós produções vieram baixar notoriamente os orçamentos, por outro acaba por ser bem mais barato emitir os filmes produzidos para a tela. Por outro lado ainda, as séries e as “novelas” vieram encher as programações, com as fidelizações do público e os enredos ajustados às suas preferências por esta ou aquela situação ou personagem.

Mas o que se fazia era em “filme”!

Hoje a tecnologia de captação de grande qualidade em sistemas electrónicos faz com que já existam realizadores e produtores a optarem por estes meios.
Só para dar um exemplo conhecido, Clint Eastwood andou a testar os sistemas digitais de captação para o seu filme “Cartas de Iwo Jima” Acabou por se ater à película na sua maior parte. Mas recorreu a câmaras de vídeo para algumas das situações mais complicadas de registar, como sejam os desembarques e combates na praia. (sei isto porque o li e não porque tenha visto a obra!) E, diz quem viu, que não se dá pela diferença.
Em qualquer dos casos, ao fazerem as “longas-metragens” a que chamamos “filmes”, a estrutura é a de cinema – narrativa, tempos, planificação, som.
Aquilo a que chamamos por cá “filmar” em nada se assemelha a isso! Organização da produção, escalas de planos e de som, desenrolar da acção e como esta se relaciona com o público, orçamentos e equipamentos…

A diferença entre “gravar” e “filmar” não é apenas nos suportes em que a imagem se regista. Vai bem mais longe e, por muito ambiciosos que muitos possam ser, aquilo que fazem são “Vídeos” e não “Filmes”.
Já agora, e só para dar um outro exemplo, sugiro que se veja o filme “one from the heart” de Francis Ford Coppola, rodado em 1982. Não garanto que tenha sido o primeiro, mas foi dos primeiros a usar as técnicas de vídeo em produção de filme. E com a qualidade que nele podemos encontrar!

Claro que a linguagem comum evolui ainda mais rápido que a tecnologia e que, ainda antes de todas as “longas-metragens” serem feitas em suportes electrónicos já ninguém dirá “gravar” mas tão só “filmar”. Mas enquanto os dois sistemas co-existirem, bem que gostaria que, pelo menos os profissionais, usassem os termos correctos: “Vídeo” para suporte electrónico, “filme” para o fotoquímico.
Com o que isso implica de técnica, métodos, custos e resultado final!

Os meus cinco cêntimos.
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JC Duarte

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