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JC Duarte
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« Responder #90 em: 17 / Mai / 2006, 10:57 » |
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Eu era muito novo. Na vida e no ofício. E mandaram-me transmitir em directo uma corrida de toiros. E eu disse Não! Todo o meu ser se rebelou contra a possibilidade de ir contribuir para a divulgação da barbárie, do espectáculo do sofrimento inútil, do gáudio das massas perante a dor e o sangue correndo de um animal inocente. Mas o bom-senso e as recomendações familiares acabaram por prevalecer e sempre lá fui fazer aquele trabalho ao serviço da empresa onde estava e estou empregado. Depois desta transmiti mais umas quantas ao longo dos anos. Quinze, vinte? Não sei ao certo. Sei, isso sim, que acabei por deixar de ser chamado para este tipo de trabalho. É que, usando das subtilezas do ofício e sem que me pudessem censurar, levava a água ao meu moinho, alterando ou subvertendo aquele espectáculo degradante. Do ponto de vista operacional, estava técnica e formalmente bem executado. Nada me poderiam apontar nesse campo. Mas a verdade é que, estando em directo e até deixar de o estar, sou dono e senhor daquilo que a minha câmara capta. E usava e abusava disso. Aquando da “gloriosa vitória” do toureiro ou matador, conseguindo espetar a bandarilha no pescoço do toiro, eu seguia com a câmara este último, fechando o plano até que só se visse a bandarilha espetada e o sangue a escorrer no pelo. Ainda que as tradições indicassem que deveria seguir e mostrar o sorriso de vitória que encimava o traje de luzes. A minha argumentação? Havia que mostrar aquilo que havia sido conseguido com esforço e duras penas: a bandarilha espetada! O homem já todos conheciam e mais ocasiões haveria para o mostrar. E quais as consequências para o público? Os aficionados haveriam de gostar. Afinal era aquilo o objectivo da festa! Os que não gostavam nem sequer estavam a ver a transmissão, pelo que não os afectava. Os indecisos, esses sim eram o meu alvo! Ficavam chocados ou indignados com o vermelho vivo e brilhante do sangue, a espuma escorrendo no torso do animal, a baba caindo-lhe da boca ao mesmo tempo que tentava, inutilmente, sacudir aquela dor do corpo. E essa repulsa que sentiam era a minha vitória! Ontem a noite da RTP foi preenchida com a glorificação do restauro da Praça de Toiros do Campo Pequeno, em Lisboa. Claro está que, com este restauro, foi aberto um grande parque de estacionamento e um centro comercial. Mais um. Esta transmissão teve um pouco de tudo. Organizada pelo LaFéria, teve fadistas e declamadores, bandas filarmónicas e os “Toca-a-rufar”, momentos de ópera e bailado. E corrida de toiros! Foi a glorificação da festa-brava, do sacrifício inútil do animal, a evocação de tradições sanguinárias e anacrónicas. Numa versão soft que, subliminarmente, tentou re-arregimentar o público para um espectáculo parado há seis anos em Lisboa. E bem que poderia continuar parado por mais seiscentos anos! Como já não sou chamado a transmitir estes eventos, já não me é possível “dar um ar da minha graça” e manifestar pela imagem a minha opinião. Mas, em meu nome e em nome de todos aqueles que estão ligados ao mundo da televisão e que condenam esta barbárie – e somos muitos – um pedido de desculpa pela transmissão de ontem da RTP! Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #91 em: 09 / Jun / 2006, 17:38 » |
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Se tiverem dúvidas sobre a lusofonia ou sobre a multiplicidade cultural deste país à beira-mar plantado, venham à minha rua. Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #92 em: 19 / Jun / 2006, 18:22 » |
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16.10 horas. Desembarco do comboio, na estação do meu bairro, de regresso do trabalho. Estou cansado, que é o primeiro dia com este horário que me faz sair da cama pelas três e meia da manhã. O meu relógio biológico ainda não se habituou. A tarde está simpática e eu fico indeciso entre subir os 1800 metros que me separam de casa ou esperar os 20 minutos pelo autocarro. Opto pela segunda. Mas, enquanto espero e não espero, vou ao café da estação, tomar uma bica que talvez me desperte até serem horas de recolher a vale de lençóis. Não é um espaço que frequente amiúde. Mas como foi o primeiro local por aqui que decidiu seguir a minha ideia e ter também as três bandeiras penduradas, até que fiquei com um fraquinho por eles. Para além das bicas e bolos da ordem, fabricam e vendem pão e têm refeições pré-cozinhadas para os almoços de quem por aqui labuta, ainda que seja um bairro-dormitório suburbano. No interior só trabalham brasileiras. Pelo menos todas elas têm sotaque de Terras de Vera Cruz. Todas abaixo dos trinta, com sorrisos simpáticos e atenciosas. Enquanto deito o meio pacote de açúcar na chávena, encosta-se ao balcão um velho. Com um ar modesto mas limpo e com boas maneiras. Num tom baixo, pediu duas sopas para levar. Como eu nada mais tinha para fazer, enquanto diluía o doce no amargo, fui vendo a operação. Para uma embalagem de plástico, e da panela eléctrica do costume, lá foram deitadas quatro valentes conchas de sopa de legumes, que os via meio de fora. Uma boa litrada de sopa! Fechada a caixa, pergunta ele quanto é e ouve “ dois euros”. Olhando para os trocos que tem na mão, diz ele: “ Então dê-me só uma, por favor!” A mulatinha do outro lado do balcão diz-lhe, em tom igualmente baixo: “ Deixe estar, leve na mesma”. E quando ele estendeu a mão para lhe dar o que quer que lá tivesse, ela insistiu: “ Não, deixe lá! Leve assim!” Com a caixa num saco e com o canito que o acompanhava atrás dele, o homem saiu em silêncio. E o meu café soube-me a sal, do que o bigode não conseguiu suster. Hoje é dia 19 e as reformas só começam a ser pagas a partir de amanhã, algumas daqui a dez dias. Obrigado!Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #93 em: 24 / Jun / 2006, 11:59 » |
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Na véspera da sua viagem ao Vaticano Presidente filipina assinou decreto para abolição de pena de morte 24.06.2006- 09h17Lusa A Presidente das Filipinas, Gloria Arroyo, assinou hoje a lei que decreta a abolição da pena de morte no seu país, na véspera da sua viagem ao Vaticano. Arroyo assinou o texto pouco depois de ter saído do hospital, onde foi admitida quinta-feira à noite por problemas intestinais. A lei, aprovada por unanimidade no início do mês pelo Senado, altera de forma automática as condenações à morte pronunciadas contra cerca de 1200 detidos. Sete execuções tiveram lugar entre 1999 e 2000, antes da entrada em vigor de uma moratória na sequência de pressões da Igreja Católica, largamente maioritária no país. In: Público, 2006-06-24  Imagem: Prisioneiros executados, aquando da Comuna de Paris, em 1871. Estes, tal como muitos outros nesta revolta, foram identificados através de fotografias feitas nas barricadas de Paris, onde os elementos das partes em confronto se exibiram perante a câmara, novidade na altura, manifestando as suas opiniões e participação na revolta. A fotografia é atribuída a Disdéri (1818-1889) Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Última modificação: 24 / Jun / 2006, 12:00 por JC Duarte »
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« Responder #94 em: 20 / Jul / 2006, 08:52 » |
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A vermelhinha é um jogo! De sorte e azar e um pouco de golpe de vista. São apresentadas ao jogador três cartas: um vermelha e duas pretas. São então viradas para baixo pelo manipulador, que as vai mudando e trocando de posição. Ao fim de um pedaço convida o jogador a indicar qual delas, ainda viradas para baixo, é a que tem as pintas vermelhas. Se o jogador for perspicaz e de bom olhar, identifica-a com facilidade, ganhando assim a aposta em jogo. Tem 33% de possibilidades de ganhar! Mentira! Este é um jogo viciado, de batota assumida e conhecida de todos menos dos incautos. Em boa verdade, o manipulador não está sozinho. Tem três, quatro, por vezes cinco ou seis pessoas que com ele trabalham. São os que formam o grupo em redor da banca de jogo, são os que vão ganhando com frequência, servindo de isco aos tolos e vigarizados. Quando sentem a vítima tentada, dão-lhe a vez de jogar e esta, acreditando que é fácil, aposta. Se à primeira vez aposta pouco, até que podem deixá-lo ganhar, para que suba a parada. Mas quando esta atinge valores consideráveis, o manipulador mostra a sua arte, fazendo as cartas rodar, mas de forma enganosa. A tal ponto que nem a vista mais arguta poderá identificar com certezas onde está a carta vermelha. E, regra geral, a vítima perde o que já tinha ganho e mais todo o resto que lá tenha apostado. E se a polícia chega, ou a vítima reclama da honestidade do jogo, há sempre um ou dois cúmplices que actuam para desviar as atenções enquanto o artista das cartas se escapa mais a sua banca de cartão. Infelizmente a batota e o vício não acontece apenas em ruas e becos esconsos ou em docas e entrepostos de viajantes e turistas. Na vida real, na política, no desporto, nas empresas, nos concursos públicos e privados, nas competições de relvado ou de secretária, há sempre um manipulador, uns iscos ou engodos e umas vítimas. E quem ganha é sempre a banca ou aqueles que investem nela, para que o jogo seja viciado à partida e se obtenha sempre o resultado previsto, garantindo uma vitória certa para uns e a derrota ou afastamento garantidos para os oponentes ou penetras no jogo. A vermelhinha da vida não tem cartas coloridas. Mas estão todas marcadas! E azar de quem com elas jogar! Ass. Um tolo incauto Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #95 em: 02 / Nov / 2006, 15:13 » |
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Não sou mono-maníaco! Sou pluri-maníaco! Das várias que tenho, uma delas é contra o desperdício. Refiro-me àquelas coisas que obtemos sem pedir, que não nos servem para nada e que, mais cedo ou mais tarde acabamos por deitar fora. A sua única utilidade é dar emprego a quem as produz e a quem trata os resíduos. No caso concreto, e aqui sou insistente, são os sacos de plástico. Entraram na nossa vida como os pensos rápidos, os telemóveis e a panela de pressão. Quase não podemos viver sem eles. Mas os telemóveis ainda lhes vamos dando uso, quanto mais não seja para os exibir como símbolo de afirmação social. A panela de pressão, usamo-la com a mesma displicência com que premimos o botão do elevador: sem pensar. Agora os sacos de plástico… Recebemo-los a troco de coisa nenhuma, bastando para tal comprar um qualquer produto numa qualquer loja: na farmácia, na drogaria, na livraria. Quer se trate de uma escova de dentes, um tubo de cola ou um livro de bolso. Aqueles produtos que cabem naquelas bolsas ou sacos que muitos de nós, homens, transportamos e que todas as senhoras possuem. Para já não dizer em cima de qualquer banco ou guarda-luvas de qualquer automóvel. Comprar um objecto, seja de que tamanho for, e não trazer uma embalagem que não a do fabricante, é quase um insulto aos nossos direitos de consumidores. No entanto… No entanto, chegamos a casa, retiramos o objecto do saco e deitamos este no lixo com a mesma facilidade com que o fazemos com as cascas de batatas. E quanto mais pequeno é o saco mais facilmente o fazemos. Com um pouco de sorte e de educação cívica, o saco é deitado fora com critérios selectivos, indo para os receptáculos adequados. Será reciclado para ser de novo um saco inútil, transformado em lixo e deitado de novo fora no caixote certo… Com azar ou negligência, será deitado no lixo indiferenciado, sendo separado nas estações de tratamento ou nem isso, ficando nesse caso como testemunha durante uns séculos valentes, do objecto que comprámos (quiçá igualmente inútil). O problema dos resíduos, industriais ou domésticos, não está em o que fazer com eles. Começa muito antes, na sua produção e na necessidade ou não da sua existência. Por mim, quando me tentam impingir um saco numa loja, e a menos que dele venha a fazer bom uso, recuso-o. E explico-o em voz alta e bom som, por forma a que mais clientes o oiçam e possam optar por o aceitar ou não aquando da sua vez. Sempre que posso, evito os becos sem saída, ambiente incluído! Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparadowww.photoblog.be/oldfashion
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« Responder #96 em: 17 / Dez / 2006, 11:57 » |
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 O termo “cidadão” faz parte do meu vocabulário habitual, escrito ou falado. E o conceito de “cidadania” é parte integrante do meu pensamento e comportamento. Fui buscar este termo e conceito a um dos factos mais relevantes da História nos últimos dois milénios: a revolução francesa. À ideia, bela na sua génese, de “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” da definição de “cidadão” acrescenta-se ainda o factor “participação”. Efectivamente, o “cidadão” não é apenas livre, igual e fraterno como tem o direito e o dever de o ser e de participar na vida da sociedade. Ter opinião, manifesta-la e, com ela, exercer o seu poder de influência junto dos seus iguais e ter o direito e o dever de assumir a sua individualidade. Grande parte das teorias, revoluções e convulsões sociais de então para cá aconteceram bebendo nela os fundamentos, com os ajustes para melhor ou pior que os seus protagonistas lhes imprimiram. Infelizmente, escondidas sob a capa de ideias belas e puras estão abusos, corrupções e adulterações que levam ao engano os incautos. Recentemente, na sociedade Portuguesa, os termos “Cidadão” e “Cidadania” têm sido usados e abusados. A propósito de tudo e de nada, são os indivíduos chamados de cidadãos e incentivados a exercer a sua cidadania. Tanto o título quanto a actividade que, repito, são belos na sua génese, são hoje aplicados no cumprimento de leis e regras que deveriam a todos igualar mas que acabam por ser novas ou inovadoras clivagens sociais, definindo por outras palavras e comportamentos separação de classes e diferenciação de direitos e oportunidades. São os que podem ou não podem estudar; São os que têm ou não têm seguros de saúde; São os que gozam ou não gozam de estabilidade económica ou social; são os que podem ou não podem traçar o seu próprio futuro. O conceito de Cidadão e de Cidadania está, assim, corrompido e obscenizado! Nos ouvidos de quem os escuta e nas bocas de quem os pronuncia. Por mim, vou tentar deixar de o usar. Não quero que bons ideais sejam mal interpretados. Nem quero ser confundido com quem, conscientemente, os adultera. E, não conhecendo nenhum outro termo suficientemente forte que o substitua, terei que recorrer a um qualquer, convencionando o seu novo significado. Poderá ser “Alguidar” ou “Torre de vigia” ou “Firmamento” ou qualquer outro. Um destes dias vos direi qual o que adoptei. Até lá, cuidado com as interpretações e significados de “Cidadão” e de “Cidadania” que por cá pululam. Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photobog.be/jc2www.photobog.be/relogioparadowww.photobog.be/odfashion
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« Responder #97 em: 10 / Abr / 2008, 06:39 » |
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A conversa já estava a azedar. Não era nada comigo, mas levantei o nariz do livro para a seguir, que as vozes já se alteravam Estávamos no comboio suburbano, parados numa estação. A troca de palavras era entre o revisor e um passageiro. Mas a comunicação mal se fazia. O passageiro, preto retinto, praticamente não falava português, tentando fazer-se entender em francês. Muito polidamente, mas em francês. Por seu lado o revisor pouco ou nada sabia ou queria saber daquela língua. Apenas lhe interessava que o bilhete não era válido e havia que pagar a multa. Principalmente aqueles “escarumbas borlistas”, que tinham que pagar como todos os outros A dado passo, agarra o passageiro por um braço, arranca-o do banco e arrasta-o para fora da composição. Os modos violentos do funcionário da CP pareceram-me muito para além do aceitável perante a atitude do passageiro. Sabendo que o francês não é uma língua universal (e é pena porque até é bonita) resolvi intervir, quanto mais não fosse como intérprete. Pelo caminho que as coisas levavam, aquele fulano até que iria passar um mau bocado se ninguém o entendesse Quando cheguei ao edifício, cruzei-me com o revisor que regressava à composição. Espumava e praguejava como poucos. No cais, passageiros largavam impropérios contra a CP, o revisor e o passeiro borlista. Nada justifica estes atrasos! E o comboio partiu.
Entrei meio a medo no gabinete do chefe da estação, onde este estava com a dificuldade que eu previa: a língua. Mas agora o tom da conversa tinha baixado para níveis civilizados. Ofereci-me para traduzir, e a história assentava em mal entendidos. Tinha ele comprado uma senha de passe, aquando da sua mudança de residência para aquela zona, havia dias. Tinha perguntado se valia por um mês, o que lhe disseram que sim. O que não lhe explicaram era que se tratava de um mês de calendário e não de trinta dias a contar da data de compra. E os bilhetes anteriores que tinha consigo comprovavam a veracidade da história. Acontece, porém, que o chefe da estação já nada podia fazer. Apesar de estar incomodado com os modos do revisor, o auto já estava levantado. A multa teria que ser paga, até porque o infractor já estava identificado. Havia apenas uma coisa a fazer: Apresentar a história no Gabinete de Apoio ao Cliente, no Rossio, e esperar que a sede resolvesse a questão. Ele próprio telefonaria para lá para contar a história.
Já que estava apeado, decidi acompanhar o caso. Fui com o passageiro até lá. A probabilidade de encontrar gente que fale francês é pequena nos tempos que correm. Pelo caminho contou-me a sua história, rica de detalhes de países pobres e de dificuldades. Migrante clandestino, tinha conseguido legalizar a situação havia pouco, mas este tipo de situações só lhe estragavam as possibilidades de ficar em permanência. Na altura, trabalhava na construção do tabuleiro ferroviário da ponte 25 de Abril. No turno da noite. E a jorna já estava perdida, que não lha iriam pagar com aquela atraso todo. Chegados ao Rossio, apresentei o caso, mas nem tive muito que fazer já que a simpática senhora que ali estava não só já sabia do caso como dominava o francês. Apesar disso, e tomadas as notas necessárias sobre a questão do bilhete, eu não me fiquei, que a questão da atitude do revisor me incomodava. Ali mesmo formalizei queixa contra ele, por comportamento racista, impróprio e violento para com os passageiros. E fiquei de voltar a saber o resultado das duas situações.
Passadas duas ou três semanas, recebi uma carta das relações públicas da CP, onde era informado do arquivamento do processo contra o passageiro, por terem sido provadas as suas argumentações. Quanto à minha queixa sobre o revisor, nunca me responderam, mas deixei de o ver naquela linha, como era hábito. Suponho que tenha levado a sua raiva latente contra outras cores para outro lado. Pobres utentes dessa outra linha!
E o passageiro? Durante algum tempo cruzei-me com ele na estação. Depois deixei de o ver e aos seus conterrâneos. Parte da comunidade Zairense migrou deste subúrbio para um outro qualquer mais barato, e ele deve tê-la acompanhado.
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