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JC Duarte
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« Responder #60 em: 01 / Nov / 2005, 10:24 » |
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1º Há uns meses uma colega minha foi assaltada. Tarde na noite, esperava o autocarro numa avenida onde quase não passam peões. Um automóvel parou junto a ela, o passageiro saltou, derrubou-a e regressou à viatura com a carteira. O comentário geral dos colegas, para além da satisfação de a saberem bem de saúde, foi o aborrecimento da perda do telemóvel e de todos os contactos nele contidos. E a trabalheira de refazer todos os documentos desaparecidos: BI, contribuinte, carta de condução, segurança social, passe, etc. 2º Foi ontem feito o anúncio formal, com direito à presença do primeiro-ministro, da criação do “documento automóvel único”. Vem este substituir o livrete e o título de propriedade, e será aplicado nas novas viaturas a serem comercializadas. Em forma de remate, a jornalista que fez a reportagem televisiva anunciou, e cito: “Para os primeiros meses do próximo ano, o governo promete mais um cartão único, o do cidadão. Num só documento substitui-se bilhete de identidade, cartão de utente e cartão de contribuinte.” Estes dois factos levam os meus pensamentos para vários lados: Recordo-me de, há uns anos valentes atrás, os nossos políticos terem recusado a ideia de um “número único nacional”, com o argumente, bastante válido aliás, que se trataria de um sistema de extrema vigilância e controle do cidadão, inadmissível numa sociedade livre; Recorda-me, igualmente, as inúmeras imagens dramáticas de braços magríssimos com números tatuados, sistema que o Nacional Socialismo Alemão usou para controlar os inimigos da pátria: judeus, ciganos, homossexuais, criminosos de ideias ou actos… Este sistema foi apoiado pela divisão alemã da IBM, o então gigante da emergente tecnologia da informática; Relembra-me também a recente alteração da lei portuguesa que passou a permitir que as imagens registadas pelas câmaras de vigilância das estradas nacionais pudessem servir de prova criminal com o mesmo peso que teria se as infracções fossem detectadas in loco por uma agente da autoridade; Da mesma forma me lembro que os actuais sistemas de “passe” dos transportes públicos, electrónicos, têm a possibilidade de registar em que ponto entrou e/ou saiu o possuidor do titulo de transporte… Ou as câmaras de vigilância das instituições, públicas ou não, que viradas para a rua, registam todos os movimentos dos transeuntes; ou que, viradas para dentro, vigiam e registam os movimentos de quem trabalha; ou os registos da “via verde”; ou os registos dos cartões de crédito ou débito; ou os registos do tráfego na Internet… Não se trata aqui da “Teoria da conspiração” ou de uma mania da perseguição. Trata-se antes de me sentir cada vez mais desconfortável ao saber que aumenta exponencialmente a possibilidade de todos os meus gestos e comportamentos serem registados, comparados e analisados, perdendo cada vez mais a individualidade, a independência ou o anonimato. E que todos esses dados e registos podem ser usados por entidades que desconheço, com fins que ignoro e à revelia da minha vontade e conhecimento. Não tenho nada a esconder, já que sou um cidadão razoavelmente cumpridor e dentro da legalidade mediana. Mas preocupa-me a possibilidade de ser tão controlado. A liberdade do individuo não pode ser apenas um estatuto bonito, inscrito em documentos subscritos por deputados ou nações. É algo que todos e cada um devemos defender, ainda que possa – e dá certamente – trabalho e chatice! Não uso a “via verde”, não uso o “passe electrónico”, não pago por cheque e raramente por cartão. E quase que estou para assumir a posição de Agostinho da Silva, ilustre pensador português da segunda metade do século XX, que recusava possuir bilhete de identidade. E mater-me-hei alerta e interveniente contra o conceito “The Big Brother is watching you!”  Imagem: fotograma de “1984” Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #61 em: 04 / Nov / 2005, 10:02 » |
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“ O mundo é uma moeda que gira apoiada na ponta de um pénis!” Esta expressão, que muitas mulheres que conheço consideram de “machista”, é a que uso para definir a existência dos seres vivos em geral e do Homem em particular. Bem espremidas, bem espremidas, e levadas à sua essência, todas as actividades e comportamentos se centram nestas duas vertentes: a sobrevivência da espécie, através da reprodução, e a sobrevivência do individuo, através da sua nutrição. A sobrevivência é a do mais apto. Procura no género oposto o individuo mais apto para uma boa e sã descendência, sobrevive melhor aquele que encontrar a melhor comida e que mais facilmente evite ou suplante os adversários e predadores. O ser humano, no entanto, é tão complexo e rebuscado na sua existência que, por vezes, há que esgravatar bem fundo para encontrar as motivações primárias. Mas elas estão lá sempre. Na sociedade em que vivemos, ambas as vertentes passam pelo dinheiro. É ele que permite ter casa, alimentação, vestuário, educação, saúde, conhecimento… E é com ele que se obtêm os adornos e sinais exteriores apelativos ao género oposto para o acasalamento. A sua obtenção é o objectivo primordial da actividade actual do ser humano e é por ele que corre e concorre contra os seus iguais. Para o alcançar valem todos os métodos e meios, mais ou menos legais, mais ou menos éticos. E se isso significar a anulação dos que o cercam, seja lá qual for o método de anulação de que estamos a falar, tanto pior… para os outros. Contando que o próprio esteja bem e seja um dos sobreviventes!... Este processo de satisfação do individuo, que passa pela competição desenfreada ou não, é aquilo a que muitos chamam a “busca da felicidade”! Alguns há, raros note-se, que não se revêem na persecução destes objectivos primários, mas que a encontram muito mais próximo e facilmente: dentro de si mesmos. Não desistindo de ir mais longe, mas encontrando a realização pessoal e a satisfação em cada momento da existência, são aqueles em quem se pode encontrar um sorriso quase permanente, genuinamente de felicidade. E são aqueles que, não fugindo aos conflitos e competições que os cercam e envolvem, procuram com elas a satisfação da espécie e não apenas do individuo. A alguns chamam poetas, filósofos ou artistas. A outros, resistentes ou revolucionários. Alguns são mesmo apodados de loucos ou visionários. Mas todos eles levam, todos os dias, a espécie mais longe e melhor. Até ao ponto, um dia, em que o meu conceito seja arcaico e inútil! Imagem: by me A imagem está, como de costume, aqui: http://www.photoblog.net/photoblog.php?nickname=jc2&action=view&id=1610181Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #62 em: 11 / Nov / 2005, 12:16 » |
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É suposto vivermos numa sociedade laica e republicana. Quer isto dizer que os poderes do estado e da igreja estão separados e não se confundem, cada um seguindo a sua via independentemente do outro. Mas, na prática, não é bem assim. Melhor, não é mesmo nada assim! Os líderes da igreja de Roma são recebidos e ouvidos pelos líderes do estado como se altas individualidades se tratassem e representassem a opinião e vontade de grandes comunidades. E sabemos que não o são, já que atingiram aquele estatuto, não por eleição ou escolha dos fiéis da igreja mas antes por opções corporativas e elitistas da igreja enquanto instituição fechada às participações dos crentes não iniciados. O comum dos fiéis mais não faz que ser fiel e seguir ordeira e obedientemente os ditamites desta hierarquia. E os media reflectem esta subserviência do estado perante a igreja. Relatam os acontecimentos ditos importantes dentro ou relacionados com a igreja de Roma, chamam elementos da sua estrutura para emitirem opiniões sobre a sociedade em geral, fazendo-o na condição de sacerdotes e não na de cidadãos. Quer se trate de debates de política ou de economia, quer se trate de simples programas ou artigos de entretenimento. Na rádio, na imprensa e na televisão. Mas a coisa vai mais longe no relacionamento do estado com a igreja de Roma! O estado define datas consideradas importantes pela igreja como dias especiais, condicionando com isso toda a comunidade, crentes e não crentes. Feriados religiosos e datas festivas! Natal, Páscoa, dia da senhora de… dia do santo de…, Nestes dias é suposto não se trabalhar. As instituições públicas estão fechadas e, nas privadas, há pagamentos extra para quem o fizer. Salários, lucros e mais-valias. E a dependência do estado em relação à igreja não termina aqui. A igreja de Roma é, de alguma forma, subsidiada ou subvencionada pelo estado. O apoio às suas instituições, através de benefícios fiscais ou contribuições para a construção dos seus edifícios é facto público e notório. O estado, através do poder central ou local, apoia e incentiva a construção e/ou manutenção dos templos e instituições, através de doações em dinheiro, serviços ou terrenos e géneros. Independentemente de os dinheiros públicos se destinarem a todos os cidadãos e não apenas ou em particular aos crentes na igreja de Roma e em desfavor de outras igrejas ou instituições. Mas se a coisa ficasse por aqui…! As manifestações públicas de fé, como as procissões ou as missas campais, são inexoravelmente autorizadas, apoiadas e, quem sabe se incentivadas. Nos locais privados e nos públicos. À revelia das confissões religiosas de todos os cidadãos e independentemente do quanto essas manifestações de fé possam alterar a ordem pública e a regularidade de vida de todos. Para além das peregrinações anuais a Fátima e das procissões regulares ao santo da terra, temos outras, extraordinárias, que são dignas das melhores estratégias de marketing comercial ou político. Hoje, algumas das principais artérias da cidade de Lisboa, vitais para o regular fluxo automóvel, vão estar bloqueadas com o consentimento do poder estatal e a superior vigilância policial. Isto porque irá decorrer uma procissão extemporânea e extraordinária promovida pela igreja de Roma. Não é importante o que esta alteração da ordem pública possa provocar na vida dos não crentes. Se a igreja pede, aceda-se. Incondicionalmente! Agora se se tratar de manifestações que ponham em causa o poder do estado, laico e republicano, e não promovidas pela igreja de Roma… Isso já é outra história! Imagem: algures na web A imagem está, como de costume, aqui: http://www.photoblog.net/photoblog.php?nickname=jc2&action=view&id=1616051Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #63 em: 12 / Nov / 2005, 11:24 » |
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Comecei a usar chapéu há umas dezenas de anos. O que começou por uma brincadeira acabou por se tornar num hábito e hoje já quase me sinto despido se não os uso. Mas esta rotina, notoriamente inofensiva para quem comigo convive, tem-me trazido alguns “amargos de boca”. Aqueles ditos “muito bem-educados” ou defensores da etiqueta social (seja lá isso o que for), olham-me de lado e com desconfiança: “Quem é este que se atreve a vir por aqui e quebrar as nossas regras?” O que acaba por ser curioso é que não é só com os humanos que tenho tido problemas com o uso de chapéu. Entre os cães, aqueles que estão treinados para ser de guarda ou que passaram maus bocados na vida, ao verem-me de chapéu protestam de medo ou espanto, ladrando e tentando morder. Quem marcha sem ter o passo certo, entre os homens e os animais, paga caro a ousadia!Vem isto a propósito do caso recente e badalado de duas jovens que foram socialmente mal-tratadas na escola secundária que frequentam, em Gaia, por assumirem comportamentos homosexuais. A dar fé nos relatos televisivos e impressos, terão sido elas insultadas por auxiliares de educação e pelo conselho executivo da escola, tendo sido chamados os encarregados de educação, proibidas de ter tais comportamentos dentro da escola e publicamente enxovalhadas. Pode-se dizer que esta escola, com os seus dirigentes e funcionários, no lugar de se inserir na comunidade onde trabalha, cria uma “ilha de moralidade”, onde o que sucede fora dos seus muros não pode reflectir-se no interior e vice-versa. Por outro lado, numa sociedade onde cada vez mais se constata e aceita a diversidade de credos, etnias, línguas e costumes, esta atitude é tão retrógrada e perigosa quanto o pendurar uma lanterna vermelha sobre a porta ou nela pintar uma estrela amarela! A função dos professores e demais intervenientes na escola é ajudarem a crescer no respeito à diferença e na sua aceitação. Estes funcionários públicos, pagos pelos contribuintes para serem parte integrante no processo de crescimento e formação dos jovens de hoje e adultos de amanhã, não merecem o salário que recebem nem o respeito e confiança dos pais que a eles confiam os seus filhos. Há, no entanto, que desculpar estes professores e auxiliares de educação em particular. O seu comportamento de cães de guarda de uma moral pública arcaica e castrante apenas os faz ter uma atitude pavloviana, protestando ditatorialmente contra o que desconhecem ou têm medo. O mal está em quem os admitiu para estas funções. Deveriam ter sido encaminhados para uma qualquer quinta ou redil, ladrando a quem passa. Com ou sem chapéu! Imagem: by me – O Patas, que só ladra para pedir festas. A imagem está, como de costume, aqui: http://www.photoblog.net/photoblog.php?nickname=jc2&action=view&id=1616924Divirtamse e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #64 em: 16 / Nov / 2005, 12:08 » |
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Sabemos que a água é um regularizador térmico. Os territórios próximos das grandes massas de água, oceanos ou grandes lagos, tem valores máximos e mínimos de temperatura menos afastados que no resto do globo. Um exemplo próximo de nós é o que sucede na nossa orla costeira e no interior transmontano ou alentejano. Claro está que há zonas de excepção como a cidade de Nova York, o deserto de Atacama, no Chile ou a Península Arábica. Mas regra geral é isso que sucede. E é isso também que determina, no pico das estações, as brisas e os ventos fortes de terra para o mar e vive versa, de manhã e à tardinha. Mas a água não existe só nos grandes depósitos ou oceanos. Em terra, e para além da que vemos correr nos rios e nascentes, existe nos aquíferos subterrrâneos e na superfície, retida pelo coberto vegetal. Não apenas este liberta água sob a forma de vapor no processo de consumo de nutrientes, como os resíduos vegetais de superfície e as suas raízes retêm a água proveniente das chuvas e da condensação. Esta água, ainda que em pequenas quantidades por metro quadrado e não visível a olho nú, é mais um factor de catalização térmica. Os invernos são menos frios e os verões menos quentes. Por cá atravessamos uma época de seca. Extrema, como sabemos. Não apenas não chove e as temperaturas subiram bastante de verão, como os incêndios têm vindo a consumir as áreas florestais, reduzindo a capacidade do solo em reter água da chuva. Esta cai e resvala na superfície em direcção às linhas de água, não penetrando no solo e não alimentando as linhas e depósitos subterrâneos e as nascentes. Se a isto juntarmos as alterações climatéricas globais que sabemos existirem, podemos prever que este inverno vai ser bastante rigoroso no que diz respeito a temperaturas baixas. Claro que “prognósticos, prognósticos, só no fim do jogo”, mas tudo aponta nessa direcção. As temperaturas serão baixas, reforçadas com ventos fortes, já que a plataforma continental estará bastante mais fria que a oceânica. Assim previsto, e não sendo necessário possuir nenhum curso superior de meteorologia, geografia ou gestão de recursos naturais, onde estão as medidas governamentais ou estatais para atender os chamados “Sem abrigo”, em tempos apelidados de “Vagabundos”, que possuem a ponte como telhado e o cartão por cobertor? Ou será que estão à espera que os casos de hipotermia, pneumonia, gripe e afins se manifestem bem mais próximo da quadra natalícia para demonstrarem espírito de solidariedade com as equipas de rua a distribuírem roupa e alimentos quentes, tal como o caldo verde e o bacalhau tradicional, devidamente enquadrados pelas câmaras de TV e os micros da Rádio? Fome é fome, carências são carências, seja qual for a época do ano ou as condições climatéricas. E a função do governo, que foi para isso que foi eleito e mandatado, é governar por antecipação e não apenas com medidas de contingência, à posteriori! Temos governo eleito ou uma companhia de seguros monstruosa? Imagem: "Washington Square", by Andre Kertész, 1954 A imagem, como de costume, está aqui: http://www.photoblog.be/photoblog.php?nickname=jc2&action=view&id=1620768Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #65 em: 18 / Nov / 2005, 13:03 » |
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O estado é a maior empresa do país. São centenas de milhar os assalariados que prestam serviços nas diversas áreas, da saúde à justiça, da educação à segurança, da higiene à cultura. O objectivo desta empresa é a prestação destes serviços aos seus sócios – os cidadãos – e os meios de o fazer provêem das contribuições dos mesmos. É um sistema em circuito fechado em que, quanto mais ricos forem os sócios e maiores as contribuições, mais e melhores são os serviços prestados! E o contrário é igual e lamentavelmente verdade. Em princípio mas não inalteravelmente! Mas isto já é outra conversa. As contribuições dos “sócios” desta empresa fazem-se sob a forma de dinheiro, numa pequena, ou não tanto, percentagem dos seus proventos. Este dinheiro mais não é que o símbolo do poder ou riqueza de quem o possui, representando os bens detidos ou produzidos pelo seu detentor. É uma forma de fazer equivaler uma vaca a um saco de trigo ou uma dúzia de ovos a um aconselhamento médico ou um par de sapatos a um jogo de copos. Mas cada vez menos se produzem bens e se aumentam os serviços. Há cada vez menos pessoas a criar vacas ou fazer sapatos ou cultivar trigo. Em compensação, há cada vez mais gente a prescrever medicamentos, a fazer aconselhamento jurídico ou a gerir firmas. A quantidade de serviços prestados aumenta na mesma proporção em que diminuem as produções de bens. Por outro lado, e para aumentar este desequilíbrio, a população está a envelhecer, o que aumenta o número de consumidores em relação aos produtores. Consequentemente, sendo o dinheiro uma representação dos bens produzidos e possuídos, este vale cada vez menos, visto que há mais gente a usar que a fazer. E o valor dos bens aumenta em relação ao do dinheiro. O estado, enquanto maior e principal empresário, regulador da actividade colectiva e grande exemplo para os indivíduos, é, proporcionalmente, o maior prestador de serviços e menor produtor de bens. De riqueza. Na sua actual filosofia de uma sociedade aberta à iniciativa privada vai, regular e continuadamente, alienando os seus próprios meios de produção de bens, afastando assim a possibilidade de ele mesmo criar riqueza ou, pelo menos, ser auto-suficiente nas suas despesas obrigatórias. Está dependente da riqueza dos cidadãos, que estão cada vez mais pobres! O aumento da eficácia na cobrança de impostos e contribuições dos cidadãos é uma medida recomendável mas ineficaz a longo prazo (para não dizer a curto prazo!). É a manutenção de um sistema autofágico que, gradual e inevitavelmente, se deteriorará até à falência total. A solução passa, parece-me, por o estado, enquanto maior empresário e representante da sociedade, passar a produzir bens, introduzindo-os no mercado e, com isto, não apenas aumentar a riqueza existente em circulação, como dela retirar as mais valias para a sua própria manutenção. Os grandes empresários, nesta sociedade virada para a iniciativa privada e o lucro, diversificam os seus investimentos, da produção aos serviços. E o resultado é que se vê: sucesso! Porque não fazer o mesmo por parte do colectivo, aprendendo com quem obtém bons resultados? E com isso manter o principal objectivo do estado enquanto organização que é, em última análise, manter em boas condições e melhorar a vida dos seus “sócios”! Se, para tal, tiver que ser mudada a lei, tanto a avulsa como a fundamental, faça-se! Urgentemente! E contratem-se (ou elejam-se) bons gestores desta mega empresa! Imagem: by me O texto original está em: http://www.photoblog.be/photoblog.php?nickname=jc2&action=view&id=1622608Divirtam-se e mantenham a luz acesa JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #66 em: 18 / Nov / 2005, 19:01 » |
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A solução passa, parece-me, por o estado, enquanto maior empresário e representante da sociedade, passar a produzir bens, introduzindo-os no mercado e, com isto, não apenas aumentar a riqueza existente em circulação, como dela retirar as mais valias para a sua própria manutenção. Os grandes empresários, nesta sociedade virada para a iniciativa privada e o lucro, diversificam os seus investimentos, da produção aos serviços. E o resultado é que se vê: sucesso! Porque não fazer o mesmo por parte do colectivo, aprendendo com quem obtém bons resultados? E com isso manter o principal objectivo do estado enquanto organização que é, em última análise, manter em boas condições e melhorar a vida dos seus “sócios”!
Olha, olha, o rapaz está a passar-se! Então, eles todos querem é menos estado, até defendem que o proprio não deve ter empresas, e blá, blá, blá... Acabaste de ler algum livro com mofo? Estou a brincar, é que aprecio a capacidade de remar contra a maré.
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« Responder #67 em: 19 / Nov / 2005, 07:32 » |
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Não é facil fazer novas receitas com ingredientes velhos e estafados! Mas sempre se pode pegar nas folhas que restam ainda verdes e nos ossos com alguma carne que sobram e tentar criar algo de aproveitavel. Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #68 em: 09 / Dez / 2005, 10:52 » |
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Quando, ainda rameloso, espreitei pela janela, sorri Apesar de o termómetro exterior marcar 9,5º, e todos sabemos como eles são mentirosos, o sol brilhava. Em breve, na sua curva aparente, cruzaria a esquina fronteira e alteraria a posição do mercúrio digital. E a casa encheu-se dos ruídos habituais. A maquina do café, a água na banheira, o rádio com as últimas, as ventoinhas das fontes e dissipadores… Até o minúsculo bebé dos vizinhos deu sinal de si, afirmando que existia e que queria um lugar ao sol. Quando desci para a “bica com bolo”, mirei melhor a rua. Um pouco mais de carros estacionados e o movimento frenético do balcão disseram-me que era feriado. Aqueles que, ao contrário de mim, não tinham que ir trabalhar, afadigavam-se por chegar a tempo às lojas, preparados para ir buscar as prendas de natal. Tratava-se de um bom feriado para ir fazer as compras de natal já que, apesar do frio, a ausência de nuvens no céu e de uma brisa que fosse não iria atrapalhar o transporte dos volumes, poucos que a vida não está para luxos. De regresso a casa deitei-me (sentei-me) ao trabalho de organizar e sistematizar os bites e os bytes por entre os ruídos normais acrescidos do bla-bla-bla da tv. O novel vizinho do lado dera jus à sua categoria de CD e, tendo Comido, Dormia. Num dos “Reboot’s” indispensáveis, a casa mergulhou de súbito no silêncio. “ Nem uma agulha bulia, na quieta melancolia…” Mas pela janela, aberta por mor do tabaco, dois sons me assaltaram: Um deles recordou-me que era meio-dia. A sirene dos bombeiros voluntários. Estando situada a alguns km em linha recta, a clareza da sua audição deu-me uma informação adicional: continuava a não haver nem uma brisa. Mas um outro, vindo do lado oposto da casa, reforçou tristemente esta certeza: Tiros! Soltos ou de rajada. De armas ligeiras. Cuspidelas de fogo pontuais, replicadas por saraivadas de estampidos. Vindos de alguns Km, da carreira de tiro da Serra da Carregueira, onde os militares se treinam. Nas artes da guerra e do morticínio. Dois sons a 180º de localização e de significado! De um lado, os soldados da paz, do outro os soldados da guerra. Enquanto uns esperam pacatamente que não sejam chamados para salvar vidas, outros treinam-se afincadamente para a tirar. Dois ruídos em que a bondade de um não consegue anular a maldade do outro. Infelizmente! Entretanto, passou uma moto de escape livre e abafou, com o som da civilização, o som da contradição. E o “Wellcome” do Windows deu sinal, o elevador entrou em marcha e um telefone tocou. Aparentemente a vida continua, feriado ou não. Os fieis do consumismo anual irão em peregrinação aos templos comerciais, onde deixarão o seu dízimo, regressando a casa conscientes da sua ignorância sobre os dramas da rua do lado e das trincheiras distantes. Espero que os que empunham as agulhetas não as tenham ligado, tal como espero que todas as balas tenham falhado todos os alvos. Paz na terra aos homens de boa vontade e aos outros também. Doze meses por ano! Imagem: algures na web A imagem está, como de costume, aqui: http://www.photoblog.net/photoblog.php?nickname=jc2&action=view&id=1643153Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #69 em: 13 / Dez / 2005, 12:19 » |
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Existe um filme intitulado “Um dia de raiva”, interpretado por Michael Douglas, com o título original de “Falling down” e dirigido por Joel Schumacher, 1993. (The Internet Movie Database - http://imdb.com) Nele, o personagem principal, levado por uma série de circunstancias adversas, algures entre o cómico e o trágico, perde as estribeiras! A dado passo, usa uma das armas apanhadas por acaso para confrontar os funcionários e clientes de uma loja de hambúrgueres no pão com as diferenças do produto vendido com o anunciado nas fotos do balcão. Carne pobre e ressequida, servida num pão triste e envolto em alface velha e chocha com o suculento e apetitoso pedaço de carne picada, dentro de um pão fofo e rico, com um verde deslumbrante da alface. Pois hoje apeteceu-me algo de semelhante! 23 horas e pouco. Há perto de 15 minutos que esperava, com outras pessoas, por um autocarro que sabia passar a cada 20 minutos. Com ele já à vista, surge da esquina uma moça. Na casa dos vinte e tal anos. Correndo como uma poldra, dá uma de mula e, esperta como um alho, fura a bicha de gente mesmo na entrada e ocupa eficazmente um dos dois únicos lugares sentados livres. A minha mente transfigurou-se! Proferindo entre dentes interjeições que o pudor me impede de aqui reproduzir, recordei-me do filme e a minha imaginação voou! Vi-me empunhado um revolver imaginário. Com ele obrigar o motorista a imobilizar a viatura e com ele ainda obrigar a dita cuja a sair pela porta. Encontrando-se já ela no passeio, temendo pelo seu futuro, gritar-lhe-ia do alto dos dois degraus motorizados: “A próxima paragem fica a 500 metros. Se correres como há pouco, ainda chegas a tempo!” E mandar seguir o autocarro. Mas mirando em redor, vi o olhar tristemente conformado dos restantes passageiros. Já nem se manifestavam ou mesmo indignavam. Para eles, isto terá sido o normal, o admissível, o inevitável. Guardei o fictício revolver no coldre da imaginação e, 25 tremidos minutos de pé depois, dei livre vazão à minha raiva neste bloco, embalado pelo calmo chocalhar da CP. E agradeci-me mentalmente de possuir apenas duas armas comigo: a minha educação e a minha caneta. P.S. Este texto foi mentalmente reconstruído no teclado, já que a minha raiva era tal que não me permitiu uma caligrafia legível. Diviram-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #70 em: 19 / Dez / 2005, 10:54 » |
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Todas as cidades têm as suas marcas indeléveis que as caracterizam. De Lisboa poder-se-á falar de dos Jerónimos, da Torre de Belém, do Castelo de S. Jorge ou das sete colinas. Mas para os Alfacinhas há outras que não constam com o mesmo destaque nos roteiros turísticos. Ele é o Rossio, que há muito que não o é; Ele são os eléctricos, que já só se mantêm por serem politicamente correctos; Ele é a feira da ladra, com o que é de ladra e o que não é… Igualmente é, ou foi, a feira popular. As festarolas, juvenis ou de família, os carrousseis, a roda gigante, comboios fantasmas, tirinhos e ginginha, alfarrabistas, algodão doce e farturas, miaus, frangos e sardinhas assadas… Os carrinhos de choque e, em tempos mais recuados, os gasolinas (pequenos barcos a motor num minúsculo lago artificial). O seu encerramento, fruto dos tempos, dos urbanismos e das negociatas imobiliárias, é um rombo que é feito nas características da capital! Mas a minha magoa com a sua terraplanagem e a antecipação dos megatérios a erguer não se fica apenas pela feira. Num dos extremos fica um edifico que em tempos foi um teatro. O teatro Vasco Santana, que anos a fio foi usado pela companhia “Teatro Estúdio de Lisboa”. Dirigida por Helena Félix e Maria Luzia Martins, já falecidas, deu abrigo a alguns jovens actores em busca de um lugar ao sol ou em cima das tábuas, e a um jovem fotógrafo que nem o sonhava vir a ser: eu. Foi neste espaço sem proscénio que fiz os primeiros clicks sobre actores, tentando registar nos halogenetos de prata a encenação e a luz. Aparentemente até que não me saí mal, já que enquanto o quis fazer, tive o exclusivo do espaço. Foi um dos melhores períodos da minha vida. Mas um outro edifício há, também condenado, que alberga outro imaginário representado: a casa de “As marionetas de Lisboa”. Um grupo de teatro de marionetas, de cordel, de luva, de sombra chinesa e o mais que a imaginação propicie e que possa levar a fantasia e o real fantasiado às crianças. Também com estes muito trabalhei, desta feita para televisão. Nos tempos em que as televisões não consideravam a criança com um ser inferior e em que os trabalhos para elas eram cuidados. As suas capacidades de adaptação à tv e o seu reportório são (foram?) notáveis. Desconheço o que o futuro reserva a este grupo. Mas desconfio que terão um destino semelhante a todos os grupos e espaços que não sejam de massas, que não alinhem em partidarismos ou compadrios e que tentem manter vivas tradições válidas da nossa cultura. Por tudo isto, os quatrocentos metros que percorri a pé e ao longo do muro em vias de extinção e dos portões que só se abrirão mais uma vez, estes 400 metros foram a caminhada mais penosa dos últimos tempos. A evolução nem sempre é uma coisa boa! Musica: “Love kil’s”, by Fredie Mercury Imagem: algures na web Imagem e som, como de costume, aqui: http://www.photoblog.net/photoblog.php?nickname=jc2&action=view&id=1651936Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #71 em: 21 / Dez / 2005, 12:02 » |
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Esta é a carta do costume. É um pouco à última hora, mas nós por cá somos assim. Não sei muito bem se fui um bom menino. A verdade é que a polícia não anda atrás de mim, não tenho multas e quanto às notas… bem, o banco não me dá mais. Assim, estando na média, aqui vai o meu pedido anual: * Não quero uma bola. Já vivo numa que nos dá muito trabalho a manter em condições, e os resultados saltam à vista; * Não quero um carro. O que não falta por aí são emissões de escapes, acidentes mortais e engarrafamentos. Além do mais não tenho carta… * Também não quero uma espada flamejante. Basta-me saber que o São Gabriel, ou outro qualquer a tem. Até porque já anda tudo à espadeirada lá por outros lados e não quero trazer isso para aqui; * No que diz respeito a bonecas, trato eu de as arranjar. É que sou esquisito e quero mesmo encontrar uma à minha medida, portanto, não te preocupes; * No que toca a livros, por favor, não aumentes as pilhas dos que aqui tenho ainda por ler E isso dos escritores da moda e dos best sellers… * Quanto a jogos e consolas… consolado ando eu por, ao não gastar muito tempo com eles, sobrar-me tempo para outras coisas, talvez mais úteis, nunca se sabe. * Também não te peço paz e amor. Parto do principio que, com tantos pedidos destes ao longo dos anos, se não os deste é porque não o podes fazer. Portanto, para quê desperdiçar um pedido? Assim sendo, peço-te uma coisa diferente este ano: um espelho. Um espelho bem grande para que todos se possam ver nele. Daqueles espelhos que mostram as qualidades e defeitos de quem lá se vê. Assim, cada um ao ver-se lá, veria de si também o que não gosta e tentaria alindar-se. Um pouco que fosse, mas um pouco de qualquer forma. Estou a pedir muito, Pai Natal? Bem, as barbas já eu as tenho e os barretes, já lhes perdi a conta, aos que já me enfiaram. Aproveito, e mando-te um recado: Vê lá se te actualizas e se passas a politicamente correcto. Isso de ter as pobres renas a puxar todo esse carrego… Arranja mas é um motor eléctrico, que não polui e não maltrata os animais. E esclarece-me: Já aderiste à moda das janelas ou ainda usas as chaminés? É que se usas a moda antiga, ainda me vais explicar como é que passas pelo exaustor… E já que estou aqui, aproveito para te fazer uma proposta: Com essa idade toda, não estás já em condições de te reformares? É que se assim for, candidato-me ao lugar. Essa coisa de se trabalhar apenas uma noite por ano vinha mesmo a calhar! Termino desejando que nesta tua volta em serviço não tropeces num bando de patos ou gansos a voar. É que com a gripe das aves que por aí anda ainda apanhas uma carraspana! PS – Apesar de tudo, acho que não fui um mau menino. Por isso, trás lá um pouco de felicidade para toda a gente! Imagem: by me Divirtam-se e aproveitem bem as festas JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #72 em: 04 / Jan / 2006, 08:08 » |
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Há uma coisa muito intrigante que se passa ao longo de toda a quadra natalícia nas rádios e nas televisões: o boletim de trânsito das operações Natal e Ano Novo. Um locutor informa sobre o número de acidentes, de mortos, de feridos graves e de feridos ligeiros, comparando invariavelmente com as ocorrências do ano anterior. Um destes dias um deles referiu mesmo o número de feridos leves, o que se compreende pela ânsia de renovar o léxico duma prosa que lhe põem diante do nariz em formato estupidamente monótono. Alguém que chegasse doutro planeta pensaria que durante o ano não há mortos e feridos nas estradas e interrogar-se-ia com estupefacção sobre este costume terráqueo de nos matarmos na estrada por ocasião do nascimento do Menino. Queria no entanto deter-me para lá do nível explícito dos boletins de trânsito. O aspecto menos óbvio, e por isso talvez fulcral se quisermos fazer um retrato para lá do retrato, é o que espreita por sob a parte sinistra da notícia: bem vistas as coisas, o que este noticiário um pouco inusitado revela é a imagem dum povo em bolandas de norte para sul, de leste para oeste, da esquerda para a direita e desta para aquela, para aqui e para ali, para cima e para baixo, por estradas principais e itinerários secundários, por auto-estradas e atalhos, estradões e terra batida, num sobe-e-desce, num corre-corre sem trégua nem alívio. O Lisboa-Dakar é só uma merecida homenagem a esta nossa vocação para o volante. Isto será mesmo assim? Ou estaremos outra vez perante a distorção da realidade provocada pela cacofonia da notícia? Que frenesim ataca este povo, todo o ano pacato excepto no Natal? E que frenesim o ataca no Ano Novo, que em vez de descansar da esfrega desata outra vez de Herodes para Pilatos, agora com energia redobrada, voando para o estrangeiro se as poupanças deixarem ou o crédito bancário o permitir? É preciso mudar de sítio para mudar de ano? As pessoas não estão bem onde estão? São como o António Variações, que só estava bem onde não estava? Detesto a mania pós-moderna das viagens e gente que não pode estar quieta. A meu ver, esta moda que tantos pensam ser sinal de sofisticação só revela almas inquietas, que não se suportam a si mesmas e mudam constantemente de sítio no desespero de fazerem férias de si próprias, que é afinal aquilo que sem saber procuram. Quando vamos a tantos lugares que os lugares se transformam em produtos de consumo passam a ser não-lugares e as pessoas que aí vemos não-pessoas. Um não-lugar cheio de não-pessoas é um sítio desumano, uma plataforma espacial que não interessa a ninguém a não ser ao consumidor de viagens. O consumidor compulsivo de viagens, o, digamos, toxicoviajante, é normalmente também um fanático das fotografias. E, como agora é tudo digital e depois se mete no computador, tem imensas colecções de fotografias que não servem para nada, porque tudo o que é em excesso se torna irrisório como a cagadela duma mosca. Devíamos ter mais calma e, antes de pôr malas ao caminho, aprender com o exemplo soberbo das plantas. As plantas não gostam de sair da terra delas. É por isso que não vemos plantas por aí a viajar feitas tontas. Toda a planta obrigada a viajar por causa do capricho dos homens, e principalmente das mulheres, se sente desenraizada. As árvores gostam tanto da sua terra que preferem morrer de pé do que fugir da morte. Quando queremos plantar uma pequena árvore para que cresça abrimos-lhe uma cova. E quando a queremos semear enterramos-lhe a semente. Bela relação com a vida, essa de ser enterrado para nascer e de ir para a cova para crescer. No Outono, as folhas mortas desprendem-se com suavidade e voam em subtil ziguezague até ao repouso eterno, no leito de alguma calçada, agonizando então à vista de toda a gente. As folhas das plantas não têm vergonha da velhice e mostram com singeleza a quem quer olhar a face lívida da morte. Convivem tão sabiamente com a morte as plantas que quando algum de nós morre os outros, à toa e sem saber que fazer, só conseguem lembrar-se de ir comprar flores para pôr sobre o morto. Não devíamos chamar à noite em que fazemos companhia ao ente querido antes de baixar à terra o velório, mas o florório: a vela é chorona e triste, o seu tremeluzir infunde treva e medo; já a flor abre em pétalas e mostra uma face de glória. E não é a glória aquilo que queremos para o morto? Baixará à terra e conviverá com a casa da planta, o sítio onde pasta as raízes e se liga aos mistérios mais fundos, que são os que se passam sob a ilusão que é a superfície e sob o engano que é a luz solar. A raiz é o ser mais perto da asa: uma voa por baixo, a outra voa por cima. A asa enraíza o pássaro, a raiz é o voo da planta. É por isso que nenhuma planta gosta de sair da sua terra. A natureza deu-nos condições para sermos seres serenos e resolvidos como os espécimes do reino vegetal: dotou-nos com pés, cuja base é a planta - a planta do pé. Mas, em vez de aproveitarmos, pomos pés ao caminho e, num ziguezague de baratas tontas, andamos de lado para lado sem atentar em lado nenhum. A planta tem connosco uma relação de harmonia fundada na frescura e no repouso. Basta pensar no bosque, ou mais simplesmente no pinheiral - esse sítio não longe de casa onde antes fazíamos piqueniques. Fomos entretanto encurralando os pinheirais e vivem hoje muitos deles na triste condição de prisioneiros entre blocos de betão. As pessoas que vivem nos blocos de betão gostam deles, pois dizem que têm ali a natureza. Desconhecem, por longínqua, a linguagem da vegetação e limitam-se a supor que eles estão ali para seu gáudio. Compram tudo em pequenas porções que transportam em sacos de plástico e pensam que também um pinheiral é algo que possa existir em estado de retalho nas traseiras do seu bloco. Nas floreiras de cimento das varandas espreitam amores-perfeitos, mas logo se retraem em vertigem, pois os amores-perfeitos são perfeitos quando vivem rente ao chão. Ali dependurados são apenas canários na gaiola - mesmo assim, desprendem o seu perfume nas primeiras noites de Primavera. Esse descuido, sagazmente captado pelos seus proprietários, faz deles eternos cativos, dado que criam involuntariamente a ilusão de natureza viva, coisa muito importante para quem vive num bloco de betão. Não devíamos levar plantas para os altos duma varanda, nem canários para a marquise da cozinha. Também não devíamos viajar tanto no Natal e no Ano Novo, nem esbarrarmo-nos como mosquitos nas lâmpadas. E assim acabavam-se os boletins de trânsito dos noticiários e já não precisávamos de tanta GNR pelas estradas fora, podendo assim deslocar uma data deles para a segurança das comitivas dos candidatos presidenciais - ora aí está um belo desejo para 2006. Ponto final. In: Público, 2006-01-04, by Luís Fernandes Professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto Imagem: algures na web Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #73 em: 21 / Jan / 2006, 15:59 » |
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 “Quantas vidas por um casaco?”. A questão é levantada por um grupo de cerca de 70 activistas do movimento Anuma Naturalis, que se manifesta através da nudez, numa rua de Barcelona, Espanha, contra a morte de martas para o fabrico de casacos de peles. in: público, 2006-01-21 Foto: Toni Garriga/EPA Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #74 em: 02 / Fev / 2006, 01:18 » |
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Não sei se é característica do “bicho homem” se apenas, e em especial, do português. Como não conheço todo o mundo, restrinjo a minha opinião ao que conheço: Portugal! Os gestores, directores ou chefes, ao exercerem a sua actividade, deveriam ler um pouco sobre psicologia e comportamentos sociais. Ao constatarem que um subalterno ou subordinado é bom profissional e querendo recompensa-lo, as mais das vezes tratam de o promover, elevando-o a uma categoria superior, de chefia e/ou coordenação. É frequente, demasiado frequente, esta opção ser uma má opção. O desempenho de uma função, acima da média e meritoriamente desempenhada, não implica que se tenha as qualidades necessárias e suficientes para liderar equipas ou “dar ordens”. As mais das vezes o que acontece, é perder-se um bom profissional para se ganhar um medíocre ou mau chefe ou líder. Sem capacidade de ter uma equipa ou um grupo de trabalho coeso e aplicado, o trabalho resultante sofre com isso, perdendo qualidade e (para usar um termo muito em voga) produtividade. O que acontece com estas pessoas é que passaram demasiado tempo a serem “mandadas” ou “coordenadas” e, quando se apanham neste posto dão vazão a anos de frustração e de “boca calada”. Usando um ditado popular “Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu”. A solução para uma recompensa de um bom desempenho profissional passa, em primeiro lugar pelo elogio, público de preferência. E, em seguida, por um aumento de ordenado (salário, vencimento, honorários, etc) que servirá como incentivo para a manutenção e incremento da qualidade de trabalho demonstrada até então. Para a liderança ou chefia, há que ter, antes de mais nada, a capacidade nata de liderar. E isto não vem nos livros de nenhum grau académico, não é fruto de experiência, nem acontece por se ter o posto graduado. A escolha deve assim passar pelas características de personalidade, por vezes bem escondidas numa função modesta. O saber desempenhar as funções de origem é importante, mas isso aprende-se. Nos livros e nos locais de trabalho. Mas ou se é chefe naturalmente, ou nunca se o será. Mas toda esta conversa, neste país, pouco mais é que “pregar aos peixes”! Sabemos que as escolhas funcionam pelas simpatias, pelas capacidades de jogar com influências e de o candidato ao posto ou cargo se afirmar, não pelas suas qualidades mas antes pelos defeitos dos seus iguais. E se não acreditam, veja-se o que se passou há pouco mais de uma semana! No entanto, há excepções pela positiva! Conheço alguém que, tendo sido promovido a um lugar de chefia, acabou por constatar que não podia exercer a função. Não só não era capaz de liderar as equipas com não era capaz de servir de patamar intermédio entre a chefia superior e os chefiados. Pediu a demissão do cargo, regressando à função anterior, onde era um mestre. Honra a quem sabe, a quem faz e a quem tem coragem! Imagem: algures na web Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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