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JC Duarte
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« Responder #75 em: 17 / Fev / 2006, 12:22 » |
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Eu acho que se deve fazer uma grande diferença entre instruir e educar. Instruir é um parente do verbo construir. Nós vamos dando, na medida em que podemos instruir alguém ou alguma coisa, nós vamos dando tijolo com que ele vai fazendo o próprio edifício à sua vontade. Instruir! E também não é por acaso que a palavra aluno é um particípio passado de um verbo, que se deixou de empregar, e que significa “O alimentado”. O aluno é aquele que nós alimentamos! A origem da palavra aluno e alimentar é exactamente a mesma. Ao passo que “Educar” já tem o elemento que significa “Conduzir”. É parente dessa palavra. E até, possivelmente, o elemento de “Reduzir”. De maneira que, quando passamos do “Instruir” para o “Educar”, nós não estamos a dar tudo o que é necessário para ele construir um edifício à sua maneira, segundo o seu gosto, mas estamos a debater o perigo de reduzir o que ele era para o habituar aos nossos costumes, para ele viver na nossa sociedade. Há outra maneira de o fazer? Nenhuma outra! Estamos nesta sociedade que tem determinadas características. Evidentemente que o que temos que fazer é proceder de tal maneira que ele não fique um estranho dentro dessa sociedade. Só? Não! Porque agora já estamos pensando que há mais coisas para além disso. Porque há o tal ideal de, depois de realizarmos um empreendimento, deixarmos determinada profissão para sermos nós próprios. Que é, por exemplo, o que falta ao reformado. Porque é que os reformados morrem tão facilmente? Porque quando eles deixam de ser um trabalhador de um determinado sector, eles apenas têm para viver a recordação disso. E é uma saudosa recordação! Porque cai sobre eles o tempo livre, que é a carga mais pesada que alguém pode ter na sua vida, e não lhes resta nenhuma ocupação senão, às vezes, definharem molemente e melancolicamente num cafezinho, chupando um cigarrinho triste. Então é alguma coisa que tem que se ver desde hoje e desde hoje modificar. É preciso que, a um tempo, o menino que nasce hoje, saiba, se for preciso, cumprir uma determinada profissão. Realizar um determinado trabalho. Às vezes, relativamente fácil. E que ele pode aprender mais facilmente do que pode aprender hoje a manusear uma peça de artilharia, ou um instrumento de engenharia qualquer para uma construção militar. Por outro lado, nós temos também que o guiar para o futuro. Para lhe dar a ideia do que vai ser o futuro. E lhe dizer que há todas as probabilidades de o menino ficar reformado, já ter nascido reformado provavelmente, nunca mais ter emprego, ou ser reformado antes de tempo, que haverá tanto trabalhador que a gente pode dar a cada um cinco ou dez anos de trabalho e depois o larga. Então o você precisa de ter é alguma coisa de si mesmo, para a qual tenha aprendido os meios de expressão, se é um poeta ou um músico, ou qualquer coisa. Ele ter a possibilidade de depois se exprimir por aquele meio. E já se está fazendo! E já se está fazendo nas escolas portuguesas mesmo. Pode-se aprender o currículo que permite a nós depois ir para o secundário, passar ao nível superior de estudos, inteiramente seguro, do caminho que percorremos, e, simultaneamente, guardar para nós, dentro de nós, para quando nos reformarmos, ou para todo o momento que tivermos livres, a tal capacidade de criar uma coisa que nunca ninguém tinha criado no mundo. Então temos que ser, ao mesmo tempo, soldados e poetas. O Camões andou nisto, por exemplo. Vários portugueses andaram nisto. E se deram muito bem. Conseguiram juntar as duas coisas. A guerra, ou a ocupação de algum local, e a poesia que iam fazendo. (…) Extracto de “Conversas vadias”, programa televisivo de Agostinho da Silva Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Última modificação: 17 / Fev / 2006, 23:46 por JC Duarte »
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« Responder #76 em: 19 / Fev / 2006, 10:03 » |
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Hoje aqui na rua, no bairro, na cidade, nasceu uma criança! Como disse um africano, feita com muito, mesmo muito amor. Todas as noites fizeram um pouquinho mais, uma perninha, um bracinho, hoje a boca, amanhã os pezinhos… Nasceu saudável e mãe e filho estão bem. O pai está baboso e sorri para quem passa… Hoje, aqui na rua, no bairro, na cidade, alguém precisou e alguém deu! Uma moeda, um sorriso, um conselho, uma prenda, um ombro. Alguém ficou um pouquinho mais feliz por ter recebido e alguém ficou muito mais cheio por ter dado. Hoje, aqui na rua, no bairro, na cidade, alguém leu um livro! Romance ou histórico, técnico ou de ficção, alguém ficou mais rico, mais culto, com os horizontes mais largos e com mais temas para contar. E alguém foi lido, alguém de alguma forma fez passar a sua mensagem, o seu testemunho, a sua imaginação, o seu sonho. Hoje, aqui na rua, no bairro, na cidade, alguém cantou! Desenhou, escreveu, dançou, convidou para dançar, para contar as estrelas, para colher uma flor. Hoje, aqui na rua, no bairro, na cidade, ninguém foi vítima de violência! Não houve nem mortos nem feridos, assaltos ou explosões, acidentes ou violações. Ninguém ficou mais pobre na sua carne ou na carne da sua carne. As ambulâncias não saíram e as lágrimas não correram. Hoje, aqui na rua, no bairro, na cidade, não houve notícias! Não houve motivos para que os repórteres aqui viessem fazer intervenções em directo nem fotografias para as manchetes. Não inventaram frases bombásticas nem entrevistaram nenhum político local. Não passaram para segundo plano eleições nem vieram aqui procurar as chamas com que aquecem as gamelas de onde comem. Hoje, aqui na rua, no bairro, na cidade, foi um dia feliz! E os media ignoraram-nos! Divirtam-se e mantenham a luz acesa JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogiioparado
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« Responder #77 em: 01 / Mar / 2006, 12:05 » |
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 “ Não adianta dar murro em ponta de faca!” Esta expressão, que tenho por oriunda do Brasil, é por si só tão explícita que dispensa comentários. “ Não adianta tentar fazer omeletas sem ovos!” Expressão popular, que já por diversas vezes foi tentada desmistificar. Em pacote, em pó, liofilizados ou pasteurizados, ou bem que a matéria-prima era o velho ovo ou não se conseguiram obter omeletas. “ Não adianta esperar que a juventude se deixe ficar tranquila e conformada!” Desconheço se esta expressão consta de algum manual de psicologia ou sociologia, mas a verdade é que é da inquietude e do inconformismo juvenil que surgem grande parte das novas ideias e criações. E que arejam velhas cabeças empoeiradas! “ Não adianta contar com empresas e povos bem geridos e livres se no topo da pirâmide existirem mentecaptos ou autocratas!” Ignoro se esta expressão foi incorporada nalguma compilação de frases feitas, populares ou não. Caso não conste, convém que rapidamente se preencha essa lacuna. É que todos sabemos da história recente ou não tanto, próxima ou distante de nós, o quanto isto é verdade. Algumas medidas, despoticamente tomadas ou inconsequentemente avaliadas, podem parecer oportunas ou adequadas, mas com o passar do tempo demonstra-se exactamente o oposto. “ Não adianta decretar a lei da rolha!” Esta expressão provavelmente não é original mas, e até demonstração em contrário, reclamo-lhe a paternidade. Numa sociedade virada para a comunicação e informação, onde a comunicação social é, efectivamente, o quarto poder e bem forte, tentar silenciar as bocas ou consciências é um acto fútil. E perigoso! Por motivos pessoais, corporativos ou políticos, por vingança ou ambição, dando a cara ou no mais cerrado anonimato, a fuga de informações, a denuncia, a calúnia, o soar das trombetas ou a coscuvilhice continuarão a proliferar. E quer seja por decreto ou normativo, em público ou em privado, ordem de serviço ou despacho, explicitamente ou como ameaça velada vociferada numa discussão… A lei da rolha é inconsequente. Não adianta!Imagem: by me Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Última modificação: 01 / Mar / 2006, 12:06 por JC Duarte »
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« Responder #78 em: 11 / Mar / 2006, 19:00 » |
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Suponhamos que se chamava Maria. Tinha dois filhos, já casados, era divorciada e vivia sozinha em Viñas del Mar, no Chile. Esta cidade, para quem não sabe e serão muitos, fica na costa do pacífico deste país sul americano e foi fundada, há uns séculos, por um português que se atreveu a cruzar os Andes e parou ali. Para além do turismo, esta cidade vive dos seus vinhos, ao que parece famosos naquela região. Pois Maria e eu, já não sei como nem porquê, trocámos mensagens durante algum tempo no MSN. Foram conversas proveitosas, em que ambos ficámos a saber bastante mais sobre os respectivos países, usos, costumes e história. A dado passo, em brincadeira, resolvi fazer uma experiência: Baseando-me nos poucos dados que Maria me tinha fornecido sobre si mesma, e sem sair daqui do computador, resolvi “cuscar” a sua existência. Não sou “hacker” nem sei quebrar barreiras de segurança informáticas. Limitei-me a passear pelas páginas existentes. Fotografias e guias turísticos, fornecedores de serviços como electricidade ou telefones, jornais locais, serviços municipais e outros. Mais não fazia que ir cruzando os dados adquiridos, somando um mais um até obter dois. É assustador o que um não conhecedor consegue saber desta forma. Cheguei ao ponto ficar a saber o seu número do bilhete de identidade, o banco que usava, de encontrar fotografias dela e do seu carro e de saber os nomes dos seus netos. Um “hacker” teria ido muito mais longe, estou certo, já que me fui deparando com diversas páginas onde se pediam passwords e que eu nem tentava desvendar. É por isso que me assusta o CU. Com o CU, será fácil para alguém com más intenções, desvendar a vida íntima de cada um, deixando a nu os pormenores das actividades dos indivíduos. E, com isso, condicionar a sua vida, no tocante a dinheiro, consumo, saúde, acesso a informação ou cultura. A centralização de dados que o CU permite assusta-me, caso caia em mãos erradas. E nada me garante que não possa cair. O CU mais não é que uma janela semi-aberta e com uma balaustrada frágil para a manipulação dos cidadãos. Para quem não sabe, o CU é o Cartão Único, recentemente estreado pelo nosso primeiro-ministro. Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #79 em: 15 / Mar / 2006, 11:57 » |
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Já por aqui tenho falado dela, mas cada um fala daquilo que conhece… Barcelona é uma cidade velha. Velha e envelhecida. Tal como o resto da Europa, mas um ritmo maior, a população da Catalunha está a envelhecer com a explosão demográfica negativa: a esperança de vida aumenta e os nascimentos diminuem. Têm sido apontadas diversas medidas, umas melhores, outras não tanto. Cito aqui duas delas: Os transportes públicos urbanos estão cada vez mais preparados para lidar e transportar pessoas com mobilidade condicionada, desde elevadores em todas as estações de metro (e que funcionam) até aos autocarros com portas especialmente preparadas com rampas mecânicas para cadeiras de rodas; E parques, muitos parques espalhados pela cidade, todos eles com equipamento infantil, uns mais elaborados que outros, mas convidativos às crianças para brincar e dando vontade aos potenciais pais de ali criarem os filhos Medidas a longo prazo, mas cujos efeitos já se começam a sentir. Por cá… Bem, por cá falamos do envelhecimento e desertificação da cidade de Lisboa. Os edifícios que se degradam são derrubados sem grandes cerimónias para darem lugar a centros comerciais ou de serviços, as vias de acesso à cidade para entrar e sair são melhoradas, convidando a residir no exterior a ela… E agora, recentemente, fala-se da extinção de hospitais, com o derrube dos que existem dentro do perímetro da cidade para os reconstruírem fora dele. O convite institucional a residir fora da cidade é cada vez maior, acabando por a tornar num deserto nocturno, descaracterizado e estéril Não serão os empreendimentos de luxo e os condomínios fechados que trarão residentes para a urbe. Estes fecham-se nos seus portões de aço e nas suas seguranças privadas, deixando as ruas igualmente desertas. É a população, a pé, nos cafés de bairro, consumindo no comércio ao pé da porta e mantendo, porque quer e necessita, o espaço público habitável e vivo, que impedirá a cidade de continuar moribunda até ao suspiro final! Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #80 em: 20 / Mar / 2006, 01:38 » |
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Leio, num jornal diário, uma pequena notícia de estatísticas sobre Portugal e dos pedidos de asilo político. Ficamos nós num mais que modesto 41º lugar, com pouco mais que uma centena de casos, muito aquém dos campeões como a Alemanha, os Estados Unidos, a França ou a Gran Bretanha, com dezenas de milhar de casos. Esta fraca cotação Lusa pode explicar-se com vários motivos: a pequenez do país, o estarmos na cauda da Europa, a língua, a guerra colonial… Apesar de sermos afáveis e hospitaleiros, nem sempre o mostramos ou somos. Lembro, a este propósito, uma história lida faz tempo num outro jornal. Cito-a porque, a dar fé na minha memória, quem assinava o artigo merece-me credibilidade. Passa-se o caso num país africano de tradição Islâmica. Numa povoação, uma mulher enviúva e, de acordo com as leis e tradições, deveria casar com um cunhado. Estas leis, ainda que nos possam parecer estranhas, são soluções encontradas localmente para resolver as situações de carência e abandono. Desta forma, a sociedade e a família, ficam responsáveis por tomar conta dos carenciados. A poligamia e o forçar ao casamento foram as soluções encontradas ancestralmente em sociedades onde a mortandade masculina era comum, fruto dos combates e acidentes de caça. Mas as práticas ancestrais nem sempre são as melhores ou a mais bem aceites, como a seguir se verá. Acontece que o cunhado/futuro marido, era um acérrimo defensor da excisão genital feminina. Tortura pela qual a mulher em causa não tinha passado. Nem queria passar, como facilmente se entende! Mas as tradições e as leis locais davam ao homem o poder de decisão na questão, sendo a mulher não apenas obrigada a casar com ele como ainda a passar por aquela indignidade atroz! No entanto tratava-se de uma mulher “d’armas” que não se queria submeter. Com a cumplicidade de alguns (poucos) amigos, conseguiu fugir de homem e da lei local, acabando por vir parar a Portugal, onde pediu asilo político. Os seus argumentos não foram aceites como válidos pelas nossas instituições, pelo que foi enviada de volta para o país de origem. Onde a justiça a procurava! Do que recordo do artigo que li então, nada constava sobre o que lhe sucedeu ao chegar à terra natal, mas consegue-se imaginar. De uma forma ou de outra, estas histórias de recusa acabam por se saber. E, ainda que não contem para as estatísticas e relatório oficiais, fazem a fama dos países e dos povos. Quando olho para o meu bilhete de identidade nacional, em vias de extinção, não sinto nenhum orgulho. Divirtam-se, se puderem, e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.potoblog.be/relogioparado
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JC Duarte
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« Responder #81 em: 29 / Mar / 2006, 23:12 » |
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Tenho um relógio! Na verdade, tenho muitos relógios espalhados pela casa, em funcionamento ou não. De pilha, de corda, de bolso, de parede, de pulso, de areia, autónomos ou inseridos em algum equipamento… Para a panóplia estar razoavelmente completa, faltam-me, entre outros, um de sol, uma clepsidra, uma vela graduada, um de cuco… Mas, para o caso, o que interessa é este relógio. Possuo-o há vinte e tal anos. Foi comprado a um companheiro de trabalho que “ganhava uns cobres por fora” com artigos de contrabando. Alguém se recorda das Inoxcrome? Suponho que possa falar disso agora, que os prazos legais já prescreveram. Comprei-o por ser automático. Ainda que seja de corda, não necessita que rodemos o “pinchavelho” para que trabalhe. Possui um pequeno mecanismo no interior que, com o simples movimento do braço põe a mola sob tensão e o sistema a funcionar. Prático. Claro que se o deixarmos em repouso por uns dias, pára. Nada que, ao tornar a usar, meia dúzia de safanões não resolvam a coisa. O mostrador não possui números. Mas também não fazem falta. Quando olhamos para um mostrador de um relógio, poucas se algumas serão as vezes em que queremos saber ao certo que horas são, com o rigor da hora, minuto ou segundo. Aquilo que procuramos saber é, de facto, quanto tempo passou ou falta para um dado acontecimento. Se estamos atrasados ou adiantados. Se iremos esperar ou ser esperados. Se a nossa impaciência tem ou não razão de ser. Se perguntarmos a alguém pelas horas, logo a seguir a esse alguém ter olhado para um relógio, o mais certo é essa alguém olhar de novo, que não fixou o valor mas apenas a relativização do tempo. E não sabe que horas são. O facto de este relógio ser de pulso não me agrada em particular. Sentir o braço preso por uma correia, ou seja o que for preso seja com o que for, desagrada-me. O tipo de relógio que gosto de usar é de bolso. Não apenas não me prende em coisa nenhuma quando trabalhamos, como não nos preocupamos com a água nem nos estraga os punhos das camisas. Acontece que os relógios de bolso têm alguns inconvenientes para mim. Ou bem que são mecânicos, de corda e volumosos, parecendo mais armas de arremesso que aparelhos de medida de tempo, ou, para serem de tamanho e peso reduzido, são de preços incomportáveis. Em alternativa, são de pilha. Tenho vários destes. Mas a pilha gasta-se e, as mais das vezes, acabo por não ter paciência para procurar uma nova. E, cada vez mais, os relojoeiros não querem vender pilhas mas relógios novos! E descartáveis! Descartáveis como o tempo! Por tudo isto, vota e meia lá estou eu a usar por uma temporada este velhinho relógio de pulso, fiel como poucos. Tem uma enorme vantagem sobre os demais que possuo: Desde que o adquiri, que se adianta regularmente uns vinte e tal segundos por dia. Não se trata de um defeito, mas antes de uma desafinação. Mas que demonstra a sua qualidade, já que se mantém inalterável há perto de trinta anos. Mas, dirão alguns, assim nunca sabes ao certo as horas! Pois não! Mas se, por um lado, não é importante sabê-lo, por outro ou bem que chego no momento aprazado ou então adiantado. Nunca atrasado. Ou seja, trata-se de um aparelho de medida pouco rigoroso e que me satisfaz por completo no seu funcionamento. Talvez porque a vida não é exacta nem tem bitolas! Divirtam-se e aproveitem bem o tempo JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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Renato Coutinho
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« Responder #82 em: 30 / Mar / 2006, 08:38 » |
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hmmm... nunca pensaste (ou te decidiste) escrever um livro?
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A. Caneira
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« Responder #83 em: 30 / Mar / 2006, 22:02 » |
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Ás vezes pergunto-me mesmo se nos reconditos das tuas coisas não mora já algum manuscrito, que por mil e um motivos, ainda pouco olhos, se não mesmo só os teus tenham percorrido?
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A. Caneira
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JC Duarte
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« Responder #84 em: 31 / Mar / 2006, 08:27 » |
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Um dos canais de TV que vou vendo, em jeito de soporífero, é o Canal de História. Tem a vantagem de ser falado em português, o que não obriga a grandes esforços para entender o que ali se vai dizendo. Assim, já na cama, primeiro fecho a luz, depois fecho os olhos e depois fecho os ouvidos. E ao fim de um pedaço, lá aquilo se desliga. A esmagadora maioria dos documentários que vai passando são de origem Norte Americana, o que me leva a dar “desconto” a muito do que exibem. A interpretação que é dada aos factos, ainda por cima recentes e ao arrepio das regras da história, é sempre a do “politicamente correcto” no continente Norte Americano. Nem tudo o que ali se diz será correcto, completo ou verdadeiro. Mas, tendo isto em conta e em mente, até que nem é mau. Um dos assuntos recorrentemente abordados é a história bélica, com imagens por vezes interessantes de reconstituições do passado distante ou de propaganda de acontecimentos recentes. Nestes documentários, os americanos são sempre os “bons”, os “salvadores do mundo” e “defensores da democracia”. Ainda que possa ser imposta pelas armas, o que me parece um contra senso, ainda por cima imposta do exterior! Volta e meia lá vão repetindo os mesmos programas (que a produção até que nem é muito abundante e é cara), sendo frequente mostrarem propaganda exaltando as qualidades das actuais tecnologias aplicadas à guerra. Sistemas de detecção, eficácia de tiro, protecção individual, comunicações, maquinaria complicada e sofisticada, bombas inteligentes… Um sem fim de equipamento cujos custos de fabrico, investigação e manutenção dariam, sem dúvida, para matar a fome a muitos milhões por muitos anos! O que me deixa assustado, para além disto, é o saber que estes documentários sobre equipamentos sensíveis e um pouco secretos, já são velhos de uns poucos de anos. Ou seja, neste momento, estes equipamentos de morte estão quase obsoletos, estando, certamente, prevista a sua substituição para breve. Não apenas porque as tecnologias evoluíram como as aplicações práticas nas frentes de combate já demonstraram quais as suas eventuais falhas e já foram modificados ou concebidos novos. E os fabricantes têm que vender. E os políticos têm que pagar tributo aos fabricantes! Assim sendo, como é que esses novos sistemas de matar e destruir serão postos à prova? O mais provável será em novas frentes de combate, surpreendendo os adversários, civis e militares, com eficácias insuspeitas. Acontece, porém, que não há novas frentes de combate. As que existem estão a esgotar-se, ou porque o domínio sobre os nativos é total ou porque começa a ser politicamente indefensável a manutenção de forças tão longe e com tamanho custo em vidas americanas. A alternativa será, inevitavelmente, a criação de novas frentes de combate, com novos inimigos e com novos motivos para invadir e impor o “American Way of Live”! De uma forma ou de outra, já se começam a desenhar novos inimigos, novos potenciais perigos para a sociedade ocidental, lá bem longe das fronteiras de quem os vê e sem riscos de retaliações. Com o beneplácito, sempre venerando e obrigado, de umas quantas instituições supra-nacionais, supostamente representando a comunidade internacional. Estou em crer que, dentro em breve, verei novos documentários sobre novas armas, com argumentos imbatíveis sobre a sua eficácia, nas frentes de combate demonstrada. O custo de tais imagens? Uma ninharia. Umas mãos cheias de vidas de inimigos anónimos, que por acaso até eram pagãos ou descrentes, que defendiam - inconcebivelmente - outras formas de vida e de sociedade e que não pagavam tributos aos suseranos mundiais! E nós continuaremos a usar essas mesmas imagens como soporífero! Divirtam-se e aproveitem bem o sono JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #85 em: 05 / Abr / 2006, 12:18 » |
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“Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos Relatórios da fome O caminho da injustiça A linguagem do terror
A bomba de Hiroshima Vergonha de nós todos Reduziu a cinzas A carne das crianças
D’África e Vietname Sobe a lamentação Dos povos destruídos Dos povos destroçados
Nada pode apagar O concerto dos gritos O nosso tempo é Pecado organizado.”Cantata de paz - Sophia de Mello Breyner Andresen Mas não vemos, não ouvimos, não lemos, ignoramos: O vizinho despedido, a mulher abortando, a criança sem leite. E não vemos, não ouvimos, não lemos, ignoramos: O orgulho do aprender, a satisfação de ser, o prazer de amar. E não vemos, não ouvimos, não lemos, ignoramos: O grito do orgasmo, o ruído do desabrochar, a cor do nascer. E não vemos, não ouvimos, não lemos, ignoramos… O que as TVs não mostram, as rádios não falam, os jornais não escrevem. Somos cegos, somos surdos, somos ignorantes! Nós que consumimos, nós que fazemos consumir! Nós, os carneiros! Divirtam-se e aproveitem bem a luz (se a virem) JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #86 em: 08 / Abr / 2006, 00:24 » |
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Nem uma M60. Ou uma Kalashnikov. Ou sequer uma Mauser! Uma clássica Winchester. Uma Walter. Uma Luger. Um humilde Colt Navy. Uma Bereta que fosse. Até poderia ser uma espada, um florete, um sabre, ou mesmo uma faca de mato. Nem sequer um canivete suíço! Naquela grande loja de brinquedos, ali mesmo por debaixo da restaurada Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa, não vi uma única arma de jeito! O mais que vi foram uns bastões de energia, bem ao estilo da Guerra das Estrela, e umas pistolas de Laser, com uns ruídos estranhos e muito pouco convincentes. Nenhuma das armas que encheram a minha infância e que, de uma forma ou de outra imitavam as reais, vistas nos filmes, noticiários ou paradas militares. Dos polícias e ladrões, dos índios e cowboys, do Major Alvega, do Romell ou do Santo. Do 10 de Junho! Das sentinelas e do “Adeus até ao meu regresso!” Os pimpolhos que possam vir a brincar com estas armas de faz-de-conta, mais não farão que fazer de conta que estão a encarnar as figuras de faz-de-conta da fantasia. Não pegarão em brincadeiras de matar para, mais tarde, ser-lhes natural o fazerem a sério. Honra a quem faz, neste caso, a quem não faz e não vende. De alguma forma estão a melhorar este mundo! Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #87 em: 13 / Abr / 2006, 23:53 » |
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Nesta época do ano muitos são os que, pelo mundo fora, celebram as suas festas religiosas. Quer seja a Páscoa multi-millenar, com o sangue de cordeiro aspergido nas soleiras das portas, quer seja a Páscoa bi-milenar, com o sangue humano escorrido de uma cruz de madeira. Mas eu, que pouco ligo a estes festejos de fé, tropecei neste poema de António Gedeão, dito por Mário Viegas e agora editado pelo jornal Público. E enquanto uns estiverem nos templos, outros de volta do folares, amêndoas ou ovos (Páscoa, primavera e renovação da vida - um só conceito), outros ainda em confraternização familiar e eu próprio a trabalhar, aqui fica para umas pausas e pensar noutros arautos de outros mundos: “ Poema para Galileo” Aqui o poema http://www.photoblog.be/photoblog.php?nickname=jc2&action=view&id=1751314Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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« Responder #88 em: 19 / Abr / 2006, 10:08 » |
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Alguns de vós, certamente, terão familiares ou amigos de pouca idade que um destes dias terão que perguntar “Afinal o que é ou foi lá isso do 25 de Abril?” E as explicações nem sempre serão fáceis, tingidas que são pela nossa própria memória e sentimentos. Pela parte que me toca, não sou bom nas letras, pelo que resolvi ajudar a quem passar por esta com este livro que há uns tempos povoa a minha biblioteca. Intitula-se “ O soldado e o capitão, os cravos e o povão”, é de autoria de Valdemar Cruz e é ilustrado por João Caetano. Ler um livro neste ecran não é certamente do agrado da maioria de quem aqui passa. Mas pode ser um ponto de partida para quem estiver em dificuldades, ou um aguçar de vontades para passar por uma livraria e trazer o original. Afinal de contas, o livro de papel ainda é um prazer insubstituível! Começa ele aqui: http://www.photoblog.be/photoblog.php?nickname=jc2&action=view&id=1754827&category=178720Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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A bem do ambiente, e a menos que seja estritamente necessário, por favor não imprima esta mensagem. Divirtam-se a aproveitem bem a luz JC Duarte Spotmeter
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JC Duarte
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« Responder #89 em: 05 / Mai / 2006, 00:13 » |
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Há uns dias foi divulgada a intenção governamental de adquirir 35 mil novas pistolas para re-equipar as forças da PSP e da GNR. Serão armas novas que irão substituir algumas com mais de 40 anos de serviço, modernas, com tudo o que isso tem de eficácia e com calibre de 9mm, capazes, portanto, de fazer frente àquelas que os criminosos usam. Foi ainda dito que esta compra seria à margem dos concursos para equipamento das forças armadas, e portanto mais rápida, e que uma das questões que estaria por decidir seria a inclusão ou não de patilha de segurança nestas armas. E é aqui, nas patilhas de segurança, que “a porca torce o rabo” ou, se preferirem, que eu “arrebito a orelha”. Vejamos porquê: Uma pistola automática só se encontra em condições de disparar se, usando as duas mãos, for introduzida a primeira bala na câmara de disparo. A partir daqui, bastará premir o gatilho para que dispare. Ou, em caso de acidente e dependendo do estado de conservação e afinação, bastará uma forte pancada, como o cair no chão. São incontáveis os acidentes nestas circunstancias. A patilha de segurança, que costuma situar-se do lado esquerdo da arma e ser actuada com o polegar da mão direita, a mão que a empunha, bloqueia o gatilho e demais sistema de disparo, impedindo os tiros acidentais, desde que travada. Por outro lado, guardar uma arma automática após introduzir a bala na câmara implica o extrair do carregador e, só depois disso, o retirar a bala da câmara, usando para tal as duas mãos. A menos que possua a tal patilha de segurança. Guardar num coldre lateral ou num estojo uma pistola automática sem estar travada e com bala pronta a disparar tem sido origem de muitos acidentes, tanto no seio das forças de segurança como envolvendo civis. Haverá também que considerar a rapidez na actuação de quem a possui. Presumo que as regras de segurança e manuseio de armas de fogo da PSP e GNR indiquem que a sua pistola deverá ser transportada sem bala na câmara. As forças de segurança devem, elas mesmas, serem seguras. Assim, e aquando da necessidade de empunhar uma arma, o agente deverá puxar a culatra atrás, introduzindo a dita bala na referida câmara. É um acto que implica o uso das duas mãos e que não acontece por acaso. E que leva tempo. Se, para além disso, tiver que destravar a patilha de segurança, usam-se mais um ou dois segundos, quiçá vitais para a intervenção dos agentes da ordem. Mas estaremos nós a falar de pistoleiros ao serviço da lei, como no velho Oeste Americano, ou de cidadãos responsáveis que são treinados para só usarem armas letais em casos extremos? Suponho, na minha ingenuidade, que a questão que estará a ser discutida sobre a existência ou não de patilha de segurança nas novas armas, passe por questões éticas, técnicas e práticas da segurança dos envolvidos versus eficácia dos utilizadores. Porque se as questões forem apenas economicistas, bem… Aí vamos nós outra vez! E, já agora: Tratando-se de uma questão que, de uma forma ou de outra, nos envolve a todos nós, os cidadãos protegidos pelos utilizadores de tais armas, não seria bonito e profilático que os prós e os contras fossem divulgados? E por quem tem que tomar decisões e sabe do assunto, entenda-se, e não apenas por um curioso e alerta como eu! Divirtam-se e aproveitem bem a luz JC Duarte www.photoblog.be/jc2www.photoblog.be/relogioparado
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