Há coisa de uma semana, ganhei o dia!
Estava eu numa das minhas deambulações fotográficas. Os meus olhos varriam tudo à passagem, em busca daquele click que justificasse uma fotografia ou um texto para ilustrar. E dou comigo na montra de uma livraria, a cobiçar um livro. Trata-se da “Livraria Municipal”, ali à avenida da República, e nem sequer fica nos meus trajectos habituais.
Entrei, pedi para ver a obra e, tendo a funcionária indicado a sua localização, fiquei a folheá-lo calmamente. Não apenas o espaço permite e convida a isso como, tratando-se de um livro caro, havia que ponderar.
Tendo-me decidido pela compra e durante a transacção, perguntou-me ela se eu queria um saco. A minha mochila era a de fotografia e estava cheia, pelo que aceitei, com a recomendação de que não selasse o saco, de papel impresso, com fita adesiva. Ainda iria trabalhar e queria aproveitar as pausas para o degustar. E foi aqui que ela franziu o sobrolho, primeiro, e me pediu que justificasse o termo, depois.
É que, disse-lhe eu, quando era novo e tinha a mania que gostava de ler, devorava tudo o que me aparecia, excepto talvez a lista telefónica e o “Livro de Pantagruel” que havia lá em casa.
Agora, que já não sou tão novo mas continuo com a mania de gostar de ler, no lugar de devorar, degusto.
Leio com calma, sentindo o prazer de cada frase ou ilustração, voltando por vezes atrás para o renovar. E, nos preliminares, folheio-o suavemente como que a acariciá-lo, detendo-me aqui e ali antecipando e prolongando o prazer.
A leitura, tal como a gastronomia e o amor, é algo que se aprende a fazer e cujos requintes no acto aumentam a satisfação de o praticar.
E o termo “degustar” é bonito, nada obsceno e não fará corar gente mais susceptível!
Saí da livraria com a mochila às costas, a câmara na mão e o livro debaixo do braço.
Para trás, ficou uma senhora de quarenta e tal anos, presa ao balcão pelas suas muletas mas com um sorriso discreto nos lábios.
Não sei o que fez no resto do dia, mas suspeito que o terá feito com calma e prazer.
O livro? “100 anos de prémio Valmor”, de José Manuel Pedreirinho. Uma compilação dos prémios e menções honrosas de arquitectura em Lisboa. Bem ilustrado e comentado.
Um livro para ler, degustando-o com prazer!
Divirtam-se e aproveitem bem a luz
JC Duarte
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