Refém do caminho ...
... não sei se o que se passa comigo, passar-se-á com outros, mas muitas vezes tenho a sensação que tornei-me refém do caminho que optei e não sei como "fugir".
Digo isto em jeito de desabafo em relação a seguinte situação. Quando iniciamos a nossa actividade, a exemplo de muitas outras, estamos receptivos a muitas tendências e caminhos, com o tempo começamos a tomar decisões e a filtrar aquilo que gostamos e não gostamos, o que queremos associados a nós ou não. Tal caminho, por vezes acaba numa formatação do nosso trabalho, e por vezes acaba por ser mais do mesmo, acrescentando pouco valor a trabalhos anteriores.
Reconheço várias vantagens a estas opções, a mais importante é que entregamos ao cliente aquilo que lhe mostramos, para além de uma maior fluidez do trabalho. No entanto obriga-nos a conviver com a indesejada rotina que nos vai tornando mais limitados aos poucos.
Pessoalmente não gostaria se catalogado por uma frase que por vezes ouço em relação a muitas actividades:
"Até trabalha bem, mas o trabalho é sempre o mesmo".
A questão que eu faço é a seguinte: Só se passa comigo, como saíram da zona de conforto?
Grato por me ouvirem, Filipe Araújo.
a rotina faz parte de muitas profissões, "mais do mesmo, chapa 5, encher chouriços", etc
Boas.
Este é um assunto que considero de deveras importancia, mas que no entanto a escrita não é dos melhores processos para o debater, pela enorme quantidade de questôes e dúvidas que se acaba levantando. De qualquer das formas, aqui vai 2 cêntimos para o debate, até porque esta forma é a que temos:
Em primeiro lugar, é preciso gostar muito de video.
Em segundo, ser bastante criativo.
Em terceiro, sentir-se pago pelo seu trabalho.
Em relação ãos dois primeiros, creio que não vale a pena falar. Todos gostam muito de video, todos são muito criativos... a porca torce o rabo em relação ão terceiro. Âo contrário do que muita gente afirma, as reportagens BBC (Bodas, Batizados e Casamentos) não precisam de ser todas iguais, existe muita forma de trabalhar e de apresentar o trabalho. A net está cheia de exemplos, é só ver. Só que não se fazem omeletes sem ovos.
Fazer um trabalho diferente e criativo exige mais tempo. Mais tempo de pre-produção, mais tempo de gravaçôes no próprio dia, mais equipamento, mais tempo de pós-produção... quando é só uma pessoa a ter que captar imagens no próprio dia, tratar do som, iluminação, orientar o casal, "lutar" pelo tempo com o fotografo,... o mal começa logo no próprio dia das gravaçôes, pelo facto de ser uma só pessoa a fazer tudo. Aliás, o mal começa logo no acto de aceitar o trabalho, pois por norma o op. de câmera só conhece o casal (de casamentos falando) no dia no casamento, pelo que não sabe se é gordo ou magro, se gosta de musica pimba ou de jazz... devia existir uma reunião com o casal para se saber o que vai acontecer, quando, aonde, as expectativas do casal em relação ao trabalho, o que gostam e não gostam, o que nós lhe vamos exigir para poder efectuar o mesmo... mas como o serviço vem pelo fotografo, como foi o fotografo que contratou o serviço... já começa torto.
Depois temos a questão da pós-produção. Para se fazer uma edição às "três pancadas" perde-se um determinado tempo. Se quisermos elaborar o trabalho, perde-se muito mais tempo. Se se sente que o trabalho não é pago pelo cliente, deixa de existir insentivo para se o fazer. E o mesmo se passa no dia das gravaçôes.
Não à forma de fugir ao caminho trilhado, quando é uma só pessoa a executar o trabalho e com a ordem de valores com que se trabalha. O único caminho que conheço é uma equipa de pelo menos duas pessoas nas gravaçôes e mais tempo de pós-produção, acompanhado de um pagamento justo. Uma equipa coesa no dia do casamento pode fazer maravilhas, mas só um gaijo... uma só pessoa também pode fazer um trabalho muito acima da média, muito mesmo, mas existe a questão pagamento... o velho problema. Para além do facto de que a criatividade também tem que dar cartas nesta situação.
Pela minha parte, fugi da "zona de conforto" optando por fazer outro tipo de trabalhos (broadcasting e institucionais), que me permite ir mantendo a minha mente sã, para além do facto de ter diminuido em muito a minha actividade, no que a casamentos diz respeito. Por vezes à que fazer opçôes, para não se cair em depressão.
A solução para estas questôes até é simples, como a associação de duas pessoas, mas o pessoal foge como o diábo da cruz. Ainda vivem no sonho de que sózinhos vão ser os donos do mundo, ainda não se convenceram de que duas pessoas chega mais longe e mais depressa que uma só. Os anos passam, e morrem sózinhas no deserto. E ainda falo eu em depressão...
As soluçôes existem e são sabidas por muitos. O problema é ultrapassarem o medo da mudança.
Você pergunta: como saíram da zona de conforto?
O problema é que a maioria não saí da "zona de conforto". É aquilo que conhecem, sempre fizeram assim, e apesar de verem os seus negócios muitas vezes a diminuirem de clientes e de valores, receiam deveras a mudança para fazerem algo. Todas as grandes empresas em alguma altura da vida tiveram de fazer mudanças. Ou isso ou morriam. E os cemitérios estão cheios de casos desses. Umas mudam de actividades/productos, outras mudam de método de trabalho: alguém sabe o que fazia a Nokia no inicio da sua actividade e o que faz hoje? Alguém sabe por onde estava a ir a Chrysler e no que se tornou?
Por último, nunca gostei muito de "mais do mesmo, chapa 5, encher chouriços", mas que tal muitas vezes se torna necessário, lá isso se torna. Só que a auto-estima do profissional vai para o buraco. E por mim falo. Pelo que prefiro não entrar nesse método de trabalho. Boas.
Olá a todos,
quando criei este tópico tinha várias expectativas, uma delas era a de que José Costa participasse. Conhecimento de causa, saber tocar o dedo na ferida e apontar soluções, são algumas das qualidades que lhe atribuo e que são as necessárias para o enriquecimento do debate.
É-me difícil acrescentar algo quando me sinto em sintonia em tudo o que escreveu. Em especial o facto de que os clientes não estão dispostos a pagar o preço justo do tempo e dos meios necessários a passagem para outro nível. No geral eu entendo o cliente, a crise atinge todos e o vídeo pode ser visto como um luxo dentro de certos valores.
Com a passagem para o Full-HD e a entrega em Blu-ray, dentro do actual quadro económico, acabei por não reflectir qualquer aumento, colocar mais um elemento, câmara, estão completamente fora de questão. No entanto sinto que esse deveria ser o caminho para a diferença.
Quanto a: "mais do mesmo, chapa 5, encher chouriços", os trabalhos não são cópias com rostos diferentes, mas gostaria de mais alguma diversidade.
Ainda assim, gostaria de ver aqui mais participações com contributos sérios sobre esta problemática.
Cumprimentos, Filipe Araújo.
Citação de: Filipe Araújo em 29 / Fevb / 2012, 12:04
(...) muitas vezes tenho a sensação que tornei-me refém do caminho que optei e não sei como "fugir".
Numa palavra: EVOLUIR
Evoluir técnicamente, evoluir criativamente e evoluir a nível de equipamentos. Todos estes 3 itens são essenciais e estão interligados. Podemos ser muito criativos, mas se não tivermos técnica e se o nosso equipamento é tralha velha, não vamos longe. Podemos ter muita técnica, mas se não formos criativos e o equipamento for do tempo da pedra lascada, não vamos longe. Podemos ter um grande equipamento, mas se não tivermos técnica nem criatividade, não vamos longe.
Se preferirmos inventar desculpas para a "morte", podemos escrever lençóis de "argumentos" mas não passarão disso mesmo: desculpas para a "morte". Embora possa ser um exercício criativo interessante.
Boas.
Só uma observação:
Da mesma forma que um Mercedes ou Ferrari não é para todas as bolsas, também o video se pode encaixar na mesma situação. É possivel cobrar muito mais pelo nosso serviço, existem clientes disponiveis para o pagar, o trabalho é que não pode ser igual ão trabalho fornecido pelo nosso concorrente. Entre dois trabalhos idênticos, fácil é de ver que o cliente vai optar pelo mais barato. Sempre foi assim e assim será. Mas acrescentem mais valor ão serviço, e já as coisas podem ser diferentes. Poderá não haver tantos clientes disponiveis para pagar valores elevados, mas também a margem de lucro e a nossa auto-estima será maior. Auto-estima não paga despesas, mas ajuda a fazer mais e melhor, contribuindo para mais trabalho e melhores clientes. E um melhor cliente é aquele que gosta do nosso trabalho e está disponivel para pagar o valor que entendemos justo pelo serviço fornecido, não é o cliente que regateia o preço e quer o trabalho de borla.
Por "acrescentem mais valor ão serviço" não me estou a referir a mais um poster de oferta ou mais um DVD para os Pais. Estou a referir-me a um melhor trabalho, a um maior profissionalismo, a uma melhor edição, a um trabalho mais personalizado. Estou a referir-me a dar atenção ão cliente, a satisfazer o cliente, a mostrar a nossa visão de um trabalho. Porque um trabalho pode ser executado de 500 maneiras diferentes.
Relativamente ão equipamento, não é o equipamento o mais importante. Não é por se ter uma Red ou uma Alexa que se vai ser melhor que os outros. Muitos filmes foram feitos recorrendo a HI8, e muitos ainda são feitos recorrendo a DV, e nem por isso são inferiores ãos feitos com equipamento superiores. Essa de que equipamento é tudo é uma mera ilusão. Equipamento é apenas ferramenta, o que se faz com a ferramenta é que é importante. Como tantas vezes digo, é preferivel uma câmera S-VHS nas mãos de quem sabe trabalhar, do que uma Red nas mãos de quem pouco mais que o botão do REC conhece.
Por outro lado, ter ideias, ser muito criativo, é muito bom. Mas não saber implementar essas ideias e não saber passar a criatividade para o video não serve de nada. Quando se está por fora, quando não se tem experiência no terreno, dar palpites é muito fácil. O dificil mesmo é pôr os palpites em andamento. É que a realidade nem sempre é aquilo que idealizamos, a realidade é um pouco mais negra.
Como o Mário Rui refere e muito bem, evoluir técnicamente, evoluir criativamente e evoluir a nível de equipamentos é fundamental. Mas essa evolução só acontece se existir retorno, e o retorno é o busilis da questão. Porque não é com uma só pessoa e com baixos preços que se vai lá chegar. Porque até o evoluir pode ser discutivel. Boas.
mais 4 cent para a fogueira...
levantaram-se algumas pontas do novelo que considero importantes...aqui vão algumas perguntas:
-em que parte deste novelo se encaixam a publicidade e marketing do nosso produto/serviço?
-como posso eu aumentar um preço dum bbc(mesmo tendo de recorrer à ajuda de outra pessoa), sem ter um desequilíbrio nas contas ao fim dum ano de trabalhos?
-terei eu de otimizar o meu vídeo(com melhores gráficos,vfx, músicas originais, vozes adequadas, boas cameras, boa edição, etc) mesmo não ganhando tanto como devia (euros por hora de trabalho) para mais tarde passado uns tempos conseguir agarrar a clientela e então poder subir o preço do trabalho?
em relação ao trio arte-técnica-equipamento, eu já vi pessoas combinarem uma canon 5d mk2 com lentes russas de 1900 para conseguirem um determinado efeito e até criarem um novo nicho de mercado....reparem bem o filme que ganhou este ano os óscares da academia...o produto final é a preto e branco e a tentar imitar os tempos do cinema mudo...o blair witch foi filmado com uma hi8, custou uma ninharia e ganharam milhões com o filme...o waterworld custou muitos milhões(muita tecnologia à mistura) e foi um fracasso comercial...
muita coisa pode ser dita relativamente a este tópico...temos de habituar os clientes a "alta cilindrada" para mais tarde lhe podermos levar mais pelo mesmo produto...boas.
todos nós gostaríamos ter equipamento de topo, mas não é por causa disso que não vamos desenvolver as nossas ideias, se estamos à espera de ter o equipamento xpto nunca mais fazemos nada...
eu sofro um bocado porque não tenho um computador a altura.... não é muito mau, mas precisava de um melhor.... mas trabalhos continua com os discos abarrotar, mas pronto....
o importante é estar sempre a fazer coisas, não parar... vamos evoluindo, ganhando conhecimento
em relação a trabalhos para clientes temos que perceber quais sãos as expectativas, depois com algum jeito mostrar algo diferente, mais nosso....
no nosso trabalho temos que ser muito firmes... porque nunca agradamos a todos...
no final temos que dizer: "é isto que eu quero" ;)