Avanço da tecnologia

Iniciado por José Costa, 02 / Set / 2012, 05:42

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José Costa

Avanço da tecnologia

(artigo de opinião)

Nos longínquos anos 90, no século passado, efectuei uma reportagem vídeo de um baptizado. Na altura ainda não existia os formatos SD digitais, como o DV ou DVCAM, e muito menos os HD. O melhor formato disponível à altura para quem realizava eventos sociais era o S-VHS ou o HI8. Betacam estava reservado às emissoras de TV e produtoras associadas, devido ão alto custo das câmeras e demais equipamentos  congéneres, necessários à edição.

A edição, por sua vez, era efectuada recorrendo-se a VTR e a mesa de mistura, pois softwares NLE ainda não existiam. O que mais se aproximava do NLE era os equipamentos da Quantel, capazes de gravar uns impressionantes (à altura) 10 segundos de video. Quanto ão custo, custava mais que uma casa, um carro e uma amante, tudo junto.

O cidadão comum tinha um leitor de VHS, pois o DVD ainda não tinha sido inventado. O melhor que alguns tinham era VHS de 4 cabeças, o topo de gama a nível de imagem. O Laserdisc da Pioneer, algo muito semelhante ão DVD que todos conhecemos hoje em dia, tinha uma qualidade de imagem simplesmente fantástica, mas era um suporte que só permitia a leitura, não a gravação. Para além disso, não teve grande implantação no mercado, devido ão facto de não permitir gravar, como no caso do VHS, e também por ter um custo bastante alto. Isto sem contar com os preços dos próprios discos, que eram bastante mais caros que as cassetes de vídeo, para além de serem volumosos.

Contava eu que efectuei uma reportagem de um baptizado. As imagens foram gravadas em S-VHS e editadas com recurso a VTR e mesa de mistura vídeo. A legendagem e grafismo era efectuada por um Commodore Amiga, uma plataforma informática que estava uma década à frente dos PCs, do que a vídeo diz respeito.

O trabalho foi entregue ão cliente em VHS, único suporte vídeo de consumo disponível à época. E um ou dois dias depois, recebi um telefonema do cliente, com uma simples questão:

Porque é que o seu trabalho, sendo você profissional e utilizando uma câmera de vídeo profissional, tem uma pior imagem que a que eu gravo com a minha (dele – cliente) câmera de vídeo de férias?

O cliente, que era do lado da Foz do Douro e casal da classe alta, era dos poucos que à época tinha uma câmera de vídeo Handycam da Sony, uma HI8. As 8mm eram até relativamente comuns, mas as HI8 eram uma minoria. E aquelas câmeras, ligadas directamente à TV, conseguiam ter uma qualidade de imagem muito boa, e melhor ainda se as imagens fossem gravadas durante o dia ou então em locais com bastante luz.

Na altura tive dificuldade em explicar ão cliente porque é que uma gravação da câmera dele, e ligada a uma TV, conseguia ter uma melhor imagem que a montagem  por mim entregue e cujo resultado final foi gravado em VHS. O raciocínio do cliente era que o meu trabalho devia ter uma melhor imagem que a que ele obtinha com a sua simples câmera de filmar, uma handycam. Raciocínio com o qual concordo.

Cerca de vinte anos se passaram após estes factos, e é curioso observar todos os avanços que de lá para cá se verificaram: o DVD eliminou por completo o VHS, os suportes de gravação nas câmeras são em cartão, softwares NLE capazes de fazer maravilhas, PCs extremamente potentes, vídeo SD passou a ser passado, vídeo HD é o futuro, ... foi um mundo de avanços tecnológicos, que só os mais antigos nesta actividade têm total consciência.

E no entanto, mesmo depois de todos estes avanços, mesmo depois de tudo o que se tem conseguido no que a qualidade de imagem diz respeito, uma coisa se manteve inalterada de lá para cá: como explicar a um cliente a razão da câmera dele, quando ligada directamente à TV para visionar uma gravação, obter uma melhor qualidade de imagem que a que se obtém de um DVD, sendo esse DVD a reportagem efectuada por algum profissional.

Hoje, como à vinte anos atrás, o consumidor comum tem a possibilidade de ter em casa imagens gravadas por si com melhor qualidade de imagem que a fornecida por um profissional da área. É algo incompreensível, mas é um facto. A qualidade das gravações, quer das câmeras profissionais quer as do amador,  têm vindo a melhorar ão longo dos anos, mas a reportagem entregue por um profissional continua, na maioria das vezes, a ter pior imagem que a que o amador obtém ão ligar a sua câmera de férias à TV.

O advento do Blu-ray parecia vir colmatar esta falha, mas até isso falhou. Poucos são os que têm leitor Blu-ray, e menos ainda os que pretendem adquirir um. Blu-ray é um nado morto, por mais que não se queira acreditar. E se bem que é possível gravar um vídeo HD em ficheiro, num qualquer disco rígido ou PEN, a verdade é que preservar esse vídeo para o futuro coloca muitos mais problemas que a simplicidade do DVD.

O avanço da tecnologia da imagem foi enorme nestas duas décadas. Mas será que foi assim tão grande?

Nota: a qualidade de imagem que refiro ão logo do texto é referente à qualidade propriamente dita, não à "qualidade" da gravação, como a estabilidade das imagens, escolha de planos, edição, etc.

By José Costa

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