Câmera video vs. DSLR

Iniciado por José Costa, 12 / Mar / 2010, 02:13

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José Costa

Boas.
Pessoas diferentes têm ideias diferentes. Pessoas diferentes têm necessidades diferentes. Pessoas diferentes têm experiências diferentes. Pergunte-se algo a 20 pessoas e possivelmente vai-se obter 20 respostas diferentes sobre o mesmo assunto. Isto porque muitas vezes as pessoas não têm os necessários conhecimentos técnicos, confundem a realidade com a expectativa, misturam emoçôes, desejos, ambiçôes. Quando se poêm os sentimentos á frente da realidade, as decisôes não são na grande maiorias das vezes acertadas.

Muito se debate a qualidade da imagem ou falta dela nas DSLR, com a finalidade de video em mente. De repente as DSLR parecem ser a solução para todos os problemas do video. As câmeras fotográficas cada vez mais baratas e com mais caracteristicas, uma delas a capacidade de poderem gravar video, tem feito muita boa gente começar a ponderar a compra de uma para a realização dos seus videos. Imagens maravilhosas nos sites, experiências fantásticas descritas em muitos fóruns, vimeo e youtube, entre outros, com centenas de horas gravadas por estas DSLR têm feito as delicias e contribuido para a ambição de comprar uma. Este marketing emotivo, que não é por acaso, tem feito muita gente se esquecer do que realmente interessa e do que está em jogo.

Quando surgiu a fotografia digital, todos os fotografos ficaram contentes com as enormes possibilidades que se abriam. Agora é que ia ser bom, a fotografia ia ficar mais barata por já não existir custos com a pelicula e revelação... um mundo maravilhoso. Várias vezes comentei: "Atenção! Não se esqueçam de que vão passar a ter mais trabalho!" (mais trabalho na preparação das fotografias, não de clientes e serviços). "És maluco!" diziam eles. "Agora vai ser muito mais rápido!"

A fotografia digital está ai. O resultado: investimento em novas câmeras, objectivas, flashes, PCs. Fotografa-se mais, mais tempo necessário para selecionar as fotografias. Horas e horas no Photoshop, quer para corrigir enquadramentos, quer para corrigir as côres. Um fotografo que faça agora um trabalho igual ão que fazia no tempo do negativo tem muito mais trabalho. No tempo do negativo, fotografava, enviáva para o laboratório, selecionava as que queria imprimir e colava no album. Fim de trabalho.

OK. O digital veio possibilitar outros tipos de serviço, outros estilos de trabalho. Mas não veio retirar trabalho ão fotografo. E os preços cobrados ão cliente não vieram compensar o trabalho extra. Com o digital é possivel fazer trabalhos diferentes, tem muitas vantagens, mas também tem alguns inconvenientes. Mas eu era maluco!

O mesmo se está a passar com as DSLR. A imagem bonita está a fazer esquecer o que realmente significa gravar em DSLR. Dificuldade de operação, acessórios extras necessários, problemas com a captura e sincronização do som, o tamanho dos ficheiros, espaço de armazenamento extra necessário no PC, PCs rápidos, mais trabalho de edição. Só para citar alguns.

As DSLR não resolvem todos os problemas. Não resolvem os contra-luzes, o som mediocre gravado nas reportagens, a falta de criatividade e de originalidade. Não resolvem os baixos preços praticados e pagos pelos clientes, a não implantação do HD nos leitores (aonde pára o Blu-ray?), a falta de estabilidade da imagem como tanto se vê nas reportagens que por este país se fazem.

As DSLR atendem bem um tipo de profissionais e de entusiastas: fotojornalistas e cinema Indie.

DSLR em BBCs (Bodas, Batizados e Casamentos)? Sim! Se tiver a possibilidade de se cobrar bem pelo serviço prestado (ou gostar de trabalhar de borla), se tiver noivos e participantes bastantes colaborativos, se tiver controlo sobre as várias actividades no decorrer do serviço, se tiver ajudante ou ajudantes. E principalmente, se tiver muita experiência e profissionalismo. Se quiser fazer um serviço diferente, criativo e estar disposto a perder muito tempo na edição, as DSLR são um caminho a seguir. Mas acredito que existem melhores alternativas.

Câmera video vs. DSLR. Se com uma câmera de video muitos são os que têm imensos problemas na captura das imagens (noivos que não participam, padres que levantam problemas, falta de luz e contra-luzes elevados, etc), se muitos se queixam dos constantes investimentos necessários, se muitos são os que não têm os necessários conhecimentos para tirar partido das câmeras video, com as DSLR só pode piorar as coisas. O video digital e os softwares existentes hoje em dia permitem fazer trabalhos simplesmente geniais e com uma qualidade extraordinária. Já pararam para pensar que o video SD foi utilizado na captação de muitas imagens existentes em muitos filmes do cinema? E então agora com o HD, ainda melhor. E o HD está ão alcance da maioria dos profissionais. O que é necessário saber é capturar boas imagens, saber trabalhar com os softwares, ter criatividade e perder muito tempo na edição. E o busilis é este: tempo. Se o cliente não paga, é dificil justificar para nós próprios a razão pela qual vamos perder duas ou três semanas á volta de um trabalho. E as DSLR são boas para isso: "perder" tempo na edição, mesmo que seja um simples trabalho.

Como muitas vezes refiro, mais vale uma VHS nas mãos de quem sabe trabalhar com ela e tirar o melhor partido da câmera e dos softwares existentes, do que a melhor câmera do mundo, com a melhor imagem possivel, nas mãos de quem não sabe o que está a fazer.

E já agora, se mesmo assim está decidido a comprar uma DSLR, fica a informação: a Canon vai disponibilizar durante este mês (Março 2010) um firmware para a EOS 5D MARK II, por forma a permitir que esta grave a 24 ou 25 fps, uma vez que ela actualmente grava a 30 fps. Boas.
O profissional inovador não segue a multidão. Ele tem lucidez para remar contra a maré e não se importa em ser taxado como "um estranho no ninho". - Luiz Roberto Carnier

Filipe Araújo


Gostaria apenas de deixar uma palavra de apreço sobre a sua mensagem.

Acredito que trás respostas coerentes a muitas dúvidas a quem quer investir.

Sobre as DSLR pouco sei. Mas sobre a transição da fotografia analógica para o digital, que apesar de ter sido uma grande oportunidade de trabalho, concordo plenamente consigo.


            Obrigado: Filipe.


Nuno S. Ferreira

Boas.
Como sempre um grande post do José Costa.
Ainda há pouco tempo estive nessa situação e apesar de continuar deslumbrado com as imagens das VDSLR, o investimento que é necessário fazer para ter um sistema que permita a realização de um bom trabalho é ainda elevado, pois é preciso adicionar um gravador e micro externo para o som, um sistema de suporte, que muitas vezes é mais caro do que a máquina, entre outras coisas. Depois de fazer as contas, analisar os prós e os contras, tomei a minha decisão e optei por uma máquina de vídeo dedicada. Mas quando puder vou experimentar uma VDSLR, isto se as coisas não mudarem entretanto, pois ao ritmo que têm andado...

José Costa

Boas.
Citado: "fotografia analógica para o digital"
Este "fotografia analógica" instalou-se por força da designação "fotografia digital", mas pessoalmente não concordo com a designação "analógica". O negativo não tem nada de processo "analógico", mas sim de quimico. Acho mais correcto chamar de fotografia "convencional". Mas é apenas uma ideia minha. Boas.
O profissional inovador não segue a multidão. Ele tem lucidez para remar contra a maré e não se importa em ser taxado como "um estranho no ninho". - Luiz Roberto Carnier

Pedro Rocha

#4
Grande COSTA!!

Já teclamos muito sobre esse tema noutros tópicos, mas para reforçar mais a tua mensagem deixo aqui uns testes feitos pelo meu caro amigo Alister Chapman que comparou a nova Canon 550D com a sua Sony EX1. A 550D não tem o mesmo sensor da 5D mas em termos de video é igual à 7D.

Fica o link para análise.

Canon T2i (550D), first impressions, initial tests (frame grabs and video supplied).

Tenho de dar o braço a torcer que as DSLR produzem imagens fantásticas, mas não é mais que uma jogada de marketing da Canon., eu acho que para quem faz trabalho de video para televisão as DSLR não vão afectar muito o mercado, quem anda a sofrer com isto é a RED que à anos promete a Scarlet que não à maneira de sair para produção em série.
MOVIMAGEM - Produção e Formação Audiovisual
Facebook - Movimagem

hCepeda

Boas,

José Costa, deixa-me que discorde um pouco na generalidade do teu comentário.
Eu trabalho num dos mais bem equipados estudios da peninsula ibérica, nomeadamente no plató e aqui passa de tudo, desde programas para televisao gravadas com Canon 7D até Sonys HDCAM SR.

O mesmo se está a passar com as DSLR. A imagem bonita está a fazer esquecer o que realmente significa gravar em DSLR. Dificuldade de operação, acessórios extras necessários, problemas com a captura e sincronização do som, o tamanho dos ficheiros, espaço de armazenamento extra necessário no PC, PCs rápidos, mais trabalho de edição. Só para citar alguns

É certo que as DSLR enfrentam um problema na captaçao de som, mas que se pode resolver, de resto nao vejo que o tamanho dos ficheiros possa ser um problema nem mais trabalho a editar. A gravaçao em HDV ou HDCAM dá mais trabalho do que ter os ficheiros gravados em cartoes de memoria, e editar e trabalhar com DPX requer bem mais processamento.

As DSLR não resolvem todos os problemas. Não resolvem os contra-luzes, o som mediocre gravado nas reportagens, a falta de criatividade e de originalidade. Não resolvem os baixos preços praticados e pagos pelos clientes, a não implantação do HD nos leitores (aonde pára o Blu-ray?), a falta de estabilidade da imagem como tanto se vê nas reportagens que por este país se fazem.

Nem as DSLR nem as camaras de video resolvem estes problemas...

A arte está na pessoa e no manuseamento que ela faz da camara, quer seja DSLR ou camaras de video. Já vi trabalhos fantásticos gravados com DSLR que outras pessoas com camaras de video nao o conseguem.

Como muitas vezes refiro, mais vale uma VHS nas mãos de quem sabe trabalhar com ela e tirar o melhor partido da câmera e dos softwares existentes, do que a melhor câmera do mundo, com a melhor imagem possivel, nas mãos de quem não sabe o que está a fazer.

Aqui concordo plenamente contigo e acrescento que a ediçao e/ou a pós produçao é igualmente ou mais importante que a captura de imagem.
A meu ver, independentemente do suporte o que interessa é o resultado final. Se ele é bom, se agrada ou serve os fins a que se destina tanto faz ser gravado com telemovel que com uma Red ou uma Arri.

Quantas vezes vimos nos telejornais reportagens com imagens mediocres gravadas com telemoveis? Nao é que me agrade mas pelos vistos serve ao fim a que se destina.

Quer se goste ou nao as DSLR vieram revolucionar um pouco o mercado de video e, na minha opiniao, subir a qualidade dos trabalhos. E tudo isto ainda só está no inicio. Se dá mais trabalho ou nao acho que depende do que se pretende fazer.



Carlos Carvalho

Não podia estar mais de acordo. Já filmei com várias câmaras, entre elas a RED e a Canon 5D Mark II.
No trabalho final, foram misturadas as imagens feitas com as duas câmaras, usando a mesma resolução, e posso dizer que é preciso estar muito atento para notar alguma diferença.
A RED é uma câmara "dificil" de manusear, é pouco prática e para tirar bons resultados é preciso dedicar bastante tempo a configurar e a preparar todos os settings. A Canon por seu lado, é basicamente, chegar, ligar, preparar a abertura e shutter e tá a andar. :)
Apesar de destinadas a trabalhos diferentes e custarem valores muito diferentes, ambas produzem imagens de excelente qualidade. A Canon, trouxe o "full HD" a um preço acessível, quando comparado com outros formatos e isso, só por si, acho formidável.
Apesar de este tipo de câmara não subsituir um formato e câmara profissional, veio trazer nossas possibilidades de produção e captação de imagem.
Sou adepto das DSLR! :)

Abraços

José Costa

Boas.
Henrique Cepeda e Carlos Carvalho: não questiono nem questionei a qualidade de imagem ou falta dela das DSLR no video. Questiono e questionei as DSLR nas reportagens video nas BBC (Bodas, Batizados e Casamentos), questão essa que creio estar bem explicita no meu post.

Que é possivel e que se faz é um facto, mas não significa que todos estão habilitados para o fazer, ou que é o "processo" mais indicado ou o mais fácil. Boas.
O profissional inovador não segue a multidão. Ele tem lucidez para remar contra a maré e não se importa em ser taxado como "um estranho no ninho". - Luiz Roberto Carnier